Engane a mente e o cérebro poderá acompanhá-la


Limites do pensamento positivo e dos "nocebos".

Jornal Folha de São Paulo - por Tom Bardy

Para gurus inspiradores e autores de autoajuda, o poder do pensamento positivo é um artigo de fé. Mas no início deste verão, 21 pessoas em um evento de um palestrante  motivacional em San José, Califórnia, sofreram queimaduras ao caminhar sobre brasas. O problema não foi que sua crença em que podiam suportar o calor havia se dissipado, escreveu Oliver Burke­man no "Times".

"E se toda essa positividade for parte do problema?", perguntou Burkeman. "E se estivermos nos esforçando demais para ter pen­samentos positivos e fosse me­lhor reconsiderar nossa relação com as situações "negativas"?"

Os slogans destinados a ani­mar as pessoas ("Eu sou uma pessoa maravilhosa! ") podem ter o efeito contrário em pessoas com baixa autoestima e fazê-Ias se sentir pior, relata Burkeman. A definição de metas pode ter o efeito contrário para uma orga­nização. Visualizar um resultado de sucesso pode tornar alguns menos inclinados a alcançá-lo. Em situações médicas, pes­quisadores descobriram que as pessoas são mais suscetíveis ao poder da sugestão. Que os placebos podem ter um efeito positivo nos pacientes - aliviar a dor, suspender a depressão, combater infecções - é um fenômeno am­plamente relatado. As pessoas melhoram porque esperam isso.

As expectativas também têm um lado negativo. Quando os pacientes antecipam que uma pílula tem efeitos colaterais negativos, podem sofrê-los mes­mo quando o remédio é inócuo. Chama-se efeito "nocebo".

Muitas pessoas abandonam testes clínicos mesmo quando estão recebendo placebo, porque sentem efeitos colaterais, relatou o "Times". Em um estudo com pessoas com e sem intolerância à lactose realizado por gastroente­rologistas italianos, os sujeitos fo­ram solicitados a ingerir lactose, embora todos tenham recebido glicose, que não tem efeito no aparelho digestivo. Mas 44% dos que tinham intolerância à lactose e 26% que não tinham relataram problemas no estômago.

Podemos enganar nossos cor­pos se nos esforçarmos bastante. Ou nos exercitarmos muito. Diana Spechler descobriu que a ioga bikram, praticada em uma sala aquecida a 37°C, ajuda a aliviar a ansiedade e a insônia. Ela disse que saiu de suas primeiras sessões em estado de graça. Mas o "estado de euforia" de Spechler, como sua avó o descre­veu, não seria permanente. Ela ficou perto de seu plano de 365 au­las de ioga em 365 dias. Mas seu remédio, a ioga bikram, começou a perder o efeito. "Como as drogas tendem a fazer comigo, ela parou de fun­cionar", escreveu Spechler. A "euforia" se dissipou. "Minha an­siedade retornava uma ou duas horas depois da aula." Ela voltou a consumir pílulas para dormir.

 Esperar em uma longa fila ou aguardar a bagagem no aero­porto podem deixar as pessoas ansiosas e infelizes, como des­cobriram os executivos de um aeroporto de Houston vários anos atrás. Queixas sobre longas esperas pelas malas persistiam mesmo quando eram colocados mais funcionários para acelerar a entrega da bagagem, escreveu Alex Stone no "Times". O que funcionou em Houston foi deslocar a esteira de bagagens para longe dos portões de desembarque, assim os passageiros tinham de andar seis vezes mais para recuperá-Ias. As queixas caíram para quase zero.

"O custo predominante da espera é emocional: estresse, tédio", escreveu Stone. "Uma melhor compreensão da psicologia da espera pode ajudar a tornar mais suportáveis essas demoras que surgem em nossas vidas."

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