Entre o primeiro e o caçula.


 Depois de ouvir a história de vida de milhares de executivos, aprendi que a vida faz dos filhos do meio os mais versados na arte do relacionamento.

Revista Você S/A - por Luiz Carlos Cabrera

Minha longa carreira de headhunter me deu o privilégio de entrevistar milhares (sem brincadeira nem exagero) de executivos ao longo das quatro últimas décadas. Uma das observações mais curiosas, que descobri usando o método biográfico que caracteriza minhas entrevistas, foi que, em famílias compostas de três filhos, o do meio é sempre o mais hábil na construção das relações, o mais rápido de raciocínio, o mais bem-humorado e, usando uma expressão coloquial, o mais safo.

A razão, na minha avaliação, mais empírica do que científica, é simples. O mais velho faz, ao nascer, uma imediata aliança com a mãe. O segundo, por sua vez, estabelece ao chegar ao mundo um vínculo com o pai, que está disponível. O nascimento do caçula, principalmente quando os pais decidem que será o último filho, faz com que o pai transfira para o mais novo seu vínculo, desfazendo o acordo que tinha com o do meio.

A consequência desse abandono simbólico é que o filho do meio fica esperto e começa a fazer alianças com avós, tios, vizinhos e até mesmo com os próprios irmãos. Isso o torna um habilidoso formador de parcerias, com o objetivo de não ser o último a escolher o passeio de fim de semana, o local das férias e outras pequenas decisões do âmbito familiar. Duas competências caracterizam os filhos do meio: a capacidade de adaptação e a resiliência. Não raras vezes encontrei primogênitos e caçulas com baixa taxa de resiliência e grande dificuldade de reagir a frustrações. Claro que o processo educacional e a própria experiência de vida podem fazê-Ios superar essas horas difíceis. Mas o amparo permanente e exagerado dos pais acaba por diminuir sua capacidade de reação.

O do meio, menos protegido naturalmente, acaba por ter de vencer as frustrações com esforço próprio, o que reforça sua resiliência. Além disso, ele desenvolve uma forte adaptabilidade, principalmente social. Não raras vezes o do meio tem de fazer alianças com empregados domésticos e com alguns prestadores de serviço. O do meio que não desenvolve essas competências corre o risco de-dormir na pior cama, usar só roupas herdadas e ter pouca voz nas decisões estratégicas da família. Essas competências, como outras que se desenvolvem durante o exercício de enfrentar os desafios da vida, acabam sendo fundamentais na vida profissional, e daí o sucesso dos indômitos filhos do meio.

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