Especialização: o desafio tecnológico


Uma boa especialização é aquela que foca exatamente nas necessidades do mercado.

jornal Estadão - por Cristiane Nascimento

Marcada pela transformação constante e pelo descompasso entre a oferta de mão de obra qualificada e o número de va­gas, a área de Tecnologia da In­formação (TI) é hoje um dos
principais gargalos para o de­senvolvimento do País. A de­manda por profissionais atuali­zados às últimas tendências na área de tecnologia seguirá alta ainda por muitos anos. Quem tem pressa para entrar ou cres­cer no mercado, porém, não po­de perder tempo. Para atender esse público, instituições de en­sino superior têm investido ca­da vez mais em cursos de espe­cialização na área.

De acordo com a Associação Brasileira das Empresas de Tec­nologia da Informação e Comu­nicação (Brasscom), o setor emprega hoje 1,3 milhão de pro­fissionais. Seu faturamento anual é de US$ 112 bilhões, o que representa 4,5% do PIE bra­sileiro. Projeções da entidade, no entanto, indicam um déficit de 45 mil profissionais em TI no Brasil até 2014.

A área exige profissionais ex­tremamente capacitados. Quanto mais específica for de­terminada formação, maiores serão as chances daqueles que se arriscarem nela. O consultor
e coordenador da Qi Network, Roberto Giovanini, de 25 anos, é um dos aventureiros. Forma­do em Tecnologia em Banco de Dados pela Fiap, o jovem matri­culou-se no ano passado em um MBA de Arquiteturas de Re­des e Cloud Computing da mes­ma instituição. "O conceito de computação em nuvem já é con­solidado no exterior e seu mer­cado aqui no Brasil é bastante promissor", diz ele. "Enxer­guei no curso a possibilidade de mudar para uma área nova e sair na frente de outros."

Giovanini estava certo. Se­gundo estudo publicado pela IBM e feito em parceria com o instituto de pesquisa Econo­mist Intelligence Unit, o núme­ro de empresas que migrarão suas infraestruturas de tecnolo­gia para ambientes online dupli­cará até 2015. Não demorou muito e o jo­vem sentiu reflexos da nova es­pecialização em sua carreira. Depois de seis meses de curso, Giovanini recebeu uma propos­ta para trabalhar como consul­tor na nova área.

A Fiap possui uma lista com mais de 10 cursos de MBAs vol­tados para a área de tecnologia. Assim como o de Cloud Com­puting, os de Business Intelli­gence e de Desenvolvimento de Aplicações para Dispo­sitivos Móveis são espe­cializações cuja pro­cura tem crescido. Tal como a Fiap, diversas institui­ções adotam o selo de MBA para classificar seus cursos de especialização. Celso Poderoso, coordenador da faculdade, destaca que, apesar da nomenclatura, o foco mantém-se em tecnologia e não em administração. Os cur­sos recebem esse nome por te­rem na grade curricular algu­mas disciplinas de gestão. Vale lembrar também que os MBAs no Brasil são tidos como cursos
lato sensu e, por esta razão, não concedem o título de mestre a seus formandos.

Autodidatismo

Para o coorde­nador dos cursos de pós-gra­duação em TI da Federal de São Carlos (UFSCar), Sérgio Zor­zo, um bom profissional da área de informática deve ser na­turalmente autodidata para se renovar na velocidade exigida pelo mercado. "Fazer cursos e ter por perto pessoas que o auxi­liem na compreensão de novas linguagens e tecnologias tende a acelerar e a otimizar esse pro­cesso", diz.

O engenheiro Ricardo Tarí­cio, de 29 anos, concorda. Ex­-aluno do curso de Desenvolvi­mento de Software para Web da universidade, ele afirma que o que vale no fim é a especializa­ção em determinadas tecnolo­gias, seja ela motivada por curiosidade, experiência ou educação formal. "Um curso, no entanto, traz um peso para o currículo", diz. A especialização feita por Ta­rício está hoje em sua 11ª edi­ção. Segundo Zorzo, a grade curricular de cada turma é úni­ca. "Oferecemos um novo cur­so a cada ano", diz. "Temos de estar atentos às tendências e mudanças de mercado para pas­sar isso aos nossos alunos."

Na contramão. Enquanto mui­tos profissionais de TI fazem cursos de tecnologias específi­cas, outros, geralmente mais ve­lhos e experientes, buscam pós­-graduações mais abrangentes. São pessoas formadas em áreas técnicas prestes a assumir car­gos de liderança.

O curso de Gestão de Proje­tos em TI oferecido pela Funda­ção Vanzolini em parceria com a USP nasceu justamente com o intuito de atender esse públi­co. "Costumo dizer que os pro­fissionais da área têm dois gran­des problemas: um é criar um projeto, o outro, mantê-lo em funcionamento", diz Marcelo Pessoa, coordenador da pós. Apesar de relacionado com TI, a especialização tem como principais pilares conceitos de projetos e de operações. O cur­so visa a capacitar profissionais a adotar as melhores tecnolo­gias para a gestão de negócios.

Com foco semelhante, a BBS Business School lançou neste ano o MBA em Tecnolo­gia da Informação. O destaque é o conceito de govemança de TI. Segundo Riccardo Rovai, . coordenador do curso, muitos profissionais evitam cursar MBAs tradicionais pela pouca relação com o seu dia a dia. "Queremos formar executivos aptos a alinhar tecnologias às
estratégias da próp pria empre­sa", diz. "Precisamos desmisti­ficar a govemança de TI para que os CIOs (diretores executi­vos de tecnologia) enxerguem a área não apenas como um cus­to, mas como aliada."

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