Estimulantes para tratar deficit de atenção


A chance de os remédios contra a doença darem "barato" é mínima e, sem isso, não há vício.

Jornal Folha de São Paulo - por Suzana Herculano-Houzel*

Escrevi aqui semana retra­sada que o deficit de atenção é um transtorno real, que afeta, em graus variados, de 0,5% a 5% das pessoas, dependen­do dos critérios de diagnósti­co (no Reino Unido, onde os critérios são mais estritos, a incidência parece mínima; nos EUA, onde o diagnóstico é mais liberal, a incidéncia pa­rece duas vezes maior).

Como tantos transtornos, o deficit de atenção também é para o resto da vida e, portan­to, não tem cura, apenas tra­tamento. Se soa ruim, eu di­ria que (1) o tratamento exis­te (não é ótimo?) e (2) ele é tão eficaz que muita gente por ai quer usá-lo sem ter neces­sidade. Trata-se de metilfeni­dato ou anfetamina - e é aqui que vários pais cruzam os braços e começam a suspeitar do médico que quer dar estimulantes para seus filhos.

O primeiro impulso de re­sistência é compreensível. Afinal, estimulantes são dro­gas pró-dopaminérgicas como a cocaína, que estimulam não só o córtex pré-frontal, tão importante para a aten­ção, como também o sistema de recompensa - daí seu po­tencial de dar "barato" e, assim, levar ao vício. Mas não é isso que o tratamento faz. Como o transtorno vem de uma necessidade de dopamina, doses baixas de metilfeni­dato ou anfetamina apenas trazem o cérebro de volta ao nível normal de funcionamento. É nesse momento que os pacientes descrevem uma sen­sação "mágica" de tranquili­dade, como se o mundo final­mente parasse de pular ao seu redor. Ler um texto até o fim é subitamente trivial, sem dez pensamentos competindo com cada palavra. Fazer uma prova toma-se possível.

Mais importante, contudo, é que há diferença entre esses estimulantes e drogas como a cocaína, que faz com que o efeito "recreativo" dos estimulantes seja muito menor. Ingeridos em comprimidos ou absorvidos pela pele, metilfenidato e anfetamina agem aos poucos e levam uma boa dezena de minutos para surtir seus efeitos, tanto sobre a atenção quanto sobre a motivação. Sem o coice do­ paminérgico propiciado, em comparação, pela inalação de cocaína, a chance de esta darem "barato" é mínima. E, sem barato, não há vício.

Aos pais hesitantes, por­tanto: se há uma necessidade real -e o diagnóstico pre­cisa ser muito bem-feito, tratar seus filhos com estimu­lantes não é viciá-los, e sim dar-Ihes a oportunidade de uma vida normal.

*Neurocientista, professora da UFRJ, autora do livro "Pílulas de Neurociência para uma Vida Melhor" (ed. Sextante) e do blog www.suzanaherculanohouzel.com

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