Estudo da depressão enfatiza o passado.


Memória específica age como espécie de "rede de segurança".

Jornal Folha de São Paulo - por Alastair Gee

Oxford, Inglaterra - Estudos da memória estão dando aos cien­tistas novas visões da depressão. Em um estudo da depressão feito na Universidade de Oxford, os par­ticipantes receberam uma palavra "pista" e tiveram 30 segundos para narrar uma memória específica, ou seja, um acontecimento que du­rou menos de um dia. Quando sugeriram a palavra "rejeitado", um participante respondeu. "Algumas semanas atrás, eu tive uma reunião com meu chefe, e minhas ideias foram rejeitadas". Outro disse. "Meus irmãos estão sempre falando em sair de férias sem mim". A segunda resposta estava er­rada - não é específica e refere-se a algo que ocorreu em diversas ocasiões. O fenômeno é chamado de memória supergeneralizada, uma tendência a lembrar aconte­cimentos passados de forma vaga e genérica. "É um fator de vulne­rabilidade para reações contra­ producentes quando as coisas dão errado na vida", disse Mark Williams, o psicólogo clínico que chefia as pesquisas de Oxford.

Esquecer um pouco é essencial. "Quando você tenta lembrar onde estacionou o carro no supermer­cado, seria um desastre se vies­sem a sua mente as outras vezes que estacionou no supermerca­do", disse Martin Conway, um psi­cólogo cognitivo da Universidade de Leeds, na Inglaterra. Mas uma tendência crônica a eliminar deta­lhes está ligada a episódios mais longos e intensos de depressão. Estudos com milhares de ado­lescentes tentam determinar se os que têm memória supergenerali­zada apresentam maior probabi­lidade de desenvolver depressão. Nesse caso, uma característica aparentemente inócua da memó­ria pode ajudar a prever se uma pessoa sofrerá doença mental.

"Com base em tudo o que sa­bemos sobre especificidade da memória e depressão, existe uma boa probabilidade de encontrar­ mos esses efeitos", disse Dirk Her­mans, psicólogo da Universidade de Leuven, na Bélgica, que colabo­rá com o doutor Williams. O doutor Williams induziu um estilo supergeneralizado em parti­cipantes de um estudo, treinando­-os para lembrar tipos de aconteci­mentos ("quando eu dirijo para o trabalho"), mais que ocasiões específicas ("quando eu dirigi para o trabalho no último sábado"). Ele descobriu que, de repente, eles fi­cavam menos capazes de solucio­nar problemas, o que sugere que a memória supergeneralízada é capaz de produzir um sintoma da depressão.

E um trabalho incomum sugere que a memória supergeneralizada é um fator de risco para transtor­no de estresse pós-traumático (TEPT). Cientistas da Univer­sidade de Nova Gales do Sul em Sydney, Austrália, avaliaram 46 bombeiros durante treinamento e novamente quatro anos depois, quando todos tinham experimen­tado acontecimentos traumáticos como ver colegas feridos ou mortos. Os que não conseguiam lembrar o passado em detalhes específicos durante a primeira avaliação tinham muito maior probabilidade de ter desenvolvido o transtorno na segunda.

Geralmente, a memória começa enfocando uma descrição geral ("jogando bola com meu irmão") e depois se estreita para um evento específico ("no último Natal"). Al­guns param de procurar no nível da generalidade, porém. Essa pode ser uma maneira útil de bloquear memórias traumáti­cas. A supergeneralização predo­mina entre os adolescentes bós­nios e sérvios, que foram expostos à guerra. Mas os problemas po­dem surgir quando a supergene­ralização se torna inflexível. Sem memórias detalhadas em que se basear, pode parecer im­possível evitar um humor som­brio. "Se você está infeliz e quer ser feliz, é bom ter memórias que você possa percorrer para encon­trar soluções específicas", disse o doutor Williams. "É como uma rede de segurança."

Pesquisadores espanhóis re­lataram que pacientes idosos de­ monstravam menos sintomas de depressão depois de praticar téc­nicas para recuperar memórias detalhadas. Com a depressão, "precisamos aumentar os instru­mentos em nossa bagagem", disse Susan Mineka, psicóloga que tra­balha em um estudo da Universi­dade Northwestern em Illinois e da Universidade da Califórnia em Los Angeles. O doutor Williams descobriu que a especificidade pode ser aumen­tada com treinamento de atenção, uma forma de meditação que com­bate tipos de depressão. Os sujeitos aprendem a enfocar experiências discriminadas e aceitar os pensa­mentos negativos. "Eu sempre tentei esquecer o passado, o passado muito ruim que me deprimiu quando meu ma­rido morreu", disse Carol Cattley, 76, que participou de um desses cursos. "Hoje, estou muito mais interessada nele."

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