Falante culto erra


Mesmo falantes cultos não seguem a norma padrão. Análise leva em conta mais de 1.500 horas de entrevistas gravadas desde a década de 1970 em cinco capitais. Pesquisa mostra que entre brasileiros com nível superior só 5% usam pronomes da forma recomendada.

Jornal Folha de São Paulo - por Antônio Gois

"Os menino pega o peixe e colocam na mesa." O leitor mais escolarizado provavel­mente estranhará a falta de concordância na frase ante­rior entre o artigo e o subs­tantivo e entre o sujeito e o verbo. Mas há algo mais nela em desacordo com o que é ensinado em gramáticas. Falta o pronome oblíquo "o", para que a frase, agora escrita em total acordo com a norma padrão, fique assim: "Os meninos pegam o peixe e colocam-no na mesa."

Análise de mais de 1.500 horas de entrevistas grava­das desde 1970 em cinco ca­pitais revelam que mesmo os brasileiros de nível universi­tário, na fala, usam varieda­des linguísticas em desacordo com a norma padrão. Estudos feitos a partir do projeto Nurc (Norma Linguís­tica Culta Urbana) e do Pro­grama de Estudos sobre o Uso da Língua revelam, por exemplo, que a omissão do pronome, como no exemplo da frase que iniciou este tex­to, é uma das características mais comuns tanto entre os mais escolarizados quanto entre os menos instruídos.

Entre brasileiros com nível superior, não passa de 5% a frequência na fala com que o pronome é colocado em ca­sos em que a norma padrão escrita recomendaria. Entre os menos escolarizados, o percentual é de 1%.

• Concordância

A diferença mais visível es­tá na concordância em frases curtas, como em "Os meninos pega o peixe", mais comum entre os menos escolarizados. As pesquisadoras Dinah Callou, Eugenia Duarte e Cé­lia Lopes, da UFRJ do projeto Nurc, explicam que os mais escolarizados têm maior cui­dado com a concordância ao escrever. Na fala coloquial, porém, o monitoramento é menor e ela se aproxima das variantes populares.

"Para espanto de muitos, as análises mostram que as variedades cultas não só não se distinguem muito entre si como também não se distan­ciam muito das variedades chamadas populares", afir­mam as pesquisadoras.

Um dos mais conhecidos estudos feitos a partir da base de dados do projeto Nurc foi feito por Ataliba Teixeira de Castilho (Unicamp). Ele afirma que uma das principais conclusões foi que, para surpresa de muitos, a língua falada por eles era também muito diferente do que era preconizado pelas gramáticas da época. 

Os pronomes pessoais das gramáticas escolares (eu, tu, eles, nós, vós, eles), por exemplo, já não correspon­diam mais ao que era usado na fala dos mais escolarizados, que já trocavam, desde a década de 1970, "tu" e "vós" por "você" e "vocês", além de "nós" por "a gente".

Uma das consequências é que, como explica Castilho, é cada vez menos comum o uso do sujeito oculto, já que, pela terminação do verbo, não é possível mais identificar cla­ramente qual pronome pes­soal foi ocultado.

As formas verbais de terceira pessoa são usadas com os pronomes "você" e "ele", portanto a terminação não é ca­paz de identificar o sujeito (por exemplo, "você fala", "ele fala"). O mesmo vale para às formas do plural ("vocês falam", "eles falam"). Com "tu" ou "vós", isso não aconteceria. A terminação seria su­ficiente para que o interlocu­tor descobrisse qual era o su­jeito da frase.

• Como falam os brasileiros de alta escolaridade.

Exemplos coletados a partir de 1.500 horas de gravações em cinco capitais

Construções mais comuns na fala de brasileiros com alta escolaridade

Diferenças em relação à norma -padrão escrita

" Acho válido botar a criança o mais cedo possível na escola. O problema é [...] se eu botaria logo num colégio como eu fiz com o primeiro. (Salvador)

Tanto entre falantes cultos quanto entre os de menor escolaridade, é comum omitir o pronome oblíquo (objeto), cujo uso é aconselhado por muitas gramáticas (O problema é se eu a botaria logo...).

" Não se usava botinhas" (São Paulo)

Construções com o pronome "se", que gramáticas consideram estar na voz passiva ("Não se usavam botinhas"), são frequentemente colocadas na voz ativa ao falar, mesmo por brasileiros com nível superior.

" O importante é que o professor proponha diferentes atividades que envolva diferentes processos mentais" (Porto Alegre)

Quando o pronome "que" retoma o termo anterior exercendo a função de sujeito, os falantes cultos frequentemente deixam de f fazer a flexão própria  da norma culta ("Diferentes atividades que envolvam diferentes processos mentais")

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