Fisioterapia cerebral: alunos problema


"Fisioterapia cerebral" pode tratar transtornos de aprendizagem, diz pesquisadora.

Jornal Folha de São Paulo - por Juliana Cunha

Enquanto os alunos ainda estão de férias, a educadora Nadia Bossa dá aulas à dis­tância para ensinar os profes­sores a lidar com as novas di­ficuldades das crianças nas salas de aula. Doutora em psicologia e educação pela USP e pesqui­sadora da Universidade de Turim, Bossa conta como os pais podem saber e o que fa­ zerquando os filhos têm transtornos de aprendizagem.

Folha - Como os pais podem identificar o transtorno?

Nadia Bossa - Sugiro que fa­çam uma espécie de laborató­rio com os filhos. Não é preci­so aplicar uma prova em casa, mas colocar a criança diante de situações que exijam racio­cínio matemático, interpreta­ção de texto ou habilidades motoras. Serve para acender um sinal de alerta. Se o sinal ob­tido for vermelho, é preciso procurar ajuda de um psicó­logo, psicopedagogo ou de um neuropediatra.

Folha - O professor sabe quando o aluno tem algum transtorno?

Nadia Bossa - É dificil que o professor não saiba que algo vai mal. O que acontece mais frequen­temente é o professor ver que o aluno tem dificuldade e tentar aplicar os métodos tradicionais, que funcionam muito bem em crianças sem transtornos de aprendizagem, mas não com as que têm o problema.

Folha - O problema estâ aumentan­do ou há uma banalização do diagnóstico?

Nadia Bossa - Há as duas coisas. Exis­tem diagnósticos precipi­tados e malfeitos e até pais que decidem que a criança tem uma coisa que nenhum médico disse que ela tinha, mas o problema de fato é crescente. Hoje as pesquisas apontam que algo entre 5% e 10% dos alunos apresentam algum transtorno específico da aprendizagem.

Folha - Por que esses transtornos es­tão crescendo?

Nadia Bossa - Parece que é por conta de um tipo de criação que prio­riza o desenvolvimento de algumas habilidades e negli­gencia outras. A rotina das crianças é muito privada de atividades motaras mais amplas. Elas não correm na rua. Hoje, o brinquedo faz tudo, a criança só olha ele dançar, piscar lu­zinhas. O brinquedo faz coi­sas demais e a criança termi­na por fazer coisas de menos. Antes elas montavam a ca­sinha, separavam os objetos, eram atos classificatórios, era interação com objetos reais, desenvolvia noção de espaço.

Folha - Brincar no iPad, por exemplo, não pode desenvolver novas habilidades?

Nadia Bossa - Sim, mas elas não são as mesmas necessárias nas ta­refas acadêmicas. O excesso de uso de tablets e compu­tadores acaba atrofiando justamente as habilidades que serão exigidas no início da vida escolar: habilidades motoras, criatividade produ­tiva, manusear materiais e construir coisas a partir de­les. O excesso de contato com iPads, computadores e vide­ogames gera na criança uma dificuldade em equilibrar a atenção difusa e a atenção concentrada.

Folha - Mas essas tecnologias estão também na sala de aula.

Nadia Bossa - A escola pode ser um am­biente tecnológico, nada de errado com isso desde que ela valorize o desenvolvimento físico com a mesma atenção. O que vem acontecendo é que tanto em casa quanto na escola todos se esquecem de que a criança tem um corpo e que esse corpo precisa apren­der coisas, precisa se exerci­tar tanto quanto o cérebro.

Folha - Transtorno de aprendizagem ê doença? Tem tratamento?

Nadia Bossa - Não é uma doença, é um tipo de funcionamento cerebral diferente que nós trata­mos com uma espécie de "fisioterapia cerebral", que são atividades, jogos e desafios específicos para desenvolver as áreas em que a criança en­contra mais dificuldade. Frequentemente precisa­mos tratar com uma equipe multidisciplinar, com neuro­logista, psicólogo e psicope­dagogo. Quem procura ajuda até a criança chegar aos oito anos provavelmente vai conseguir resolver o problema.

• Aprendizado difícil

Veja como identificar os transtornos

- TDAH

Desordem de atenção e hiperatividade

- Sintomas

Agitação, dificuldade de concentração, "desligar­-se do mundo" quando assiste a televisão ou joga videogame.

- Como identificar

Propor jogos que exigem atenção, como batalha naval.

- DISORTOGRAFIA

Incapacidade de relacionar a linguagem com a gramática.

- Sintomas

Leitura sem ritmo (ignorar pontos finais), não reconhecer sílabas tônicas, escrita com erros.

Como identificar

Pedir para a criança ler uma história em voz alta.

- DISGRAFIA

Problema motor que prejudica a escrita

- Sintomas

Comportamento desastra­do depois dos seis anos, letra muito feia, dificulda­de para usar talheres ou amarrar sapatos.

- Como identificar

Jogar baralho, dar as ca artas para a criança embaralhar ou distribuir.

- DISCALCULIA

Dificuldade para identifi­car e manipular números.

- Sintomas

Não entender a diferen­ça entre os números e não identificar o maior e o menor; percebida após a 3ª série

Como identificar

Usar jogos de tabuleiro, com casas que misturam números com posições.

- DISLEXIA

Dificuldade na leitura, escrita e soletração.

- Sintomas

Escrever as mesmas palavras de jeitos diferentes e cometer erros de ortografia sem um padrão.

- Como identificar

Brincar de escolinha, copiar palavras da lousa e ditado.

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