Insônia: nocaute natural


Dá para tratar insônia com plantas? Apesar de bons resultados em vários casos, médicos dizem faltar estudos e lembram: ervas também têm efeitos colaterais e causam dependência.

Jornal Folha de São Paulo - por Marcos Gomes

Quando passa por perío­dos de insônia, a dona de ca­sa Simone Vereda, 42, recor­re ao chá de folhas de mara­cujá ou à tintura de farmácia à base de maracujá que lhe foi receitada por um fítotera­peuta: "Faço chá bem forte ou diluo uma tampa da tintu­ra em meio copo de água e to­mo meia hora antes de ir pa­ra a cama. Funciona bem". Já Paulo Vereda, 46, mari­do de Simone, diz não ter a mesma sorte. "Se não consi­go dormir, as plantas medici­nais não funcionam. Já tomei várias tampinhas de tintura de maracujá diluídas em água e nada de fazer efeito." E é isso o que acontece: pa­ra certas pessoas as plantas medicinais funcionam, para outras, não.

Diagnóstico

Mas é possível tratar insô­nia com esses remédios? Mé­dicos acham que não. "A pessoa pode fazer uso de plantas medicinais por um período curto, mas para tra­tar a insônia é necessário fa­zer um diagnóstico, pois po­de ser sintoma de doença, co­mo depressão, ou resultar de mau condicionamento", diz Rosa Hasan, neurologista do Grupo de Sono do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. "O problema das plantas medicinais é a falta de estu­dos confiáveis. Esses estudos passam por várias fases e abrangem amostras amplas, o que os torna muito caros", afirma a médica. "Dessas plantas todas [usadas para combater a in­sônia], só tomei conhecimen­to de estudos comprovando algum efeito na valeriana", diz Hasan. E a neurologista adverte: "Não é para usar esse trata­mento o tempo todo porque as plantas também causam dependência e tolerância e têm efeitos colaterais como os outros remédios".

• Doces e cascudas

José Garbin, clínico geral que trabalha em um retiro ad­ventista em Itapecerica da Serra (SP) e é adepto da fito­terapia, também ressalta a importância do diagnóstico e da conversa com o paciente. No caso de pacientes com dificuldades para pegar no sono, Garbin afirma que tem alcançado bons resultados com o uso, por curtos perío­dos de tempo, de plantas me­dicinais como lúpulo, valeri­ana, maracujá e capim-limão. "Mas a alimentação também é importante: a falta de mag­nésio é um dos fatores que pode causar insônia", diz Garbin, que recomenda aos insones o consumo de folhas verdes no jantar.

Já a fitoterapeuta Luciane Couto, que mora e trabalha em Parati (RJ), diz que indica a planta dependendo do biótipo da pessoa: "Pessoas do­ces se dão melhor com chá de melissa; para pessoas mais "cascudas", recomendo mulungu, feito de cascas, ou va­leriana, feita de raízes."

- Valeriana

(Valeriana offidnalis)
São usadas as raízes. En­tre seus princípios ativos es­tão os valepotriatos, que au­mentam as concentrações do ácido gama-aminobutírico, neurotransmissor que inibe a atividade cerebral causan­do relaxamento. É tóxica em altas doses e em uso contí­nuo, alerta Sylvio Panizza, em seu livro "Plantas que Cu­ram: Cheiro de Mato" (São Paulo, Ibrasa, 1998).

- Lúpulo

(Humulus lupulus)
É parente da maconha, mas não tem TRC (o princí­pio psicoativo). Na planta, que é usada no preparo da cerveja, foram isoladas mais de 300 substâncias, desta­cando-se óleo volátil e resi­nas, como a lupulona. É indi­cada como calmante, mas fal­tam estudos que expliquem seu funcionamento.

- Capim-limão

(Cymbopogon citratus)
São usadas as folhas. Embo­ra faltem estudos científicos sobre seus componentes quí­micos, sabe-se que essa plan­ta é desprovida de ação tóxi­ca. Porém, microfragmentos das suas folhas, no chá, po­dem causar irritação na boca
e nas mucosas.

- Maracujá

(Passiflora edulis e Passi­flora incamata)

São usadas as folhas. Se­gundo Harry Lorenzi e Abreu Matos ("Plantas Medicinais no Brasil", Instituto Planta­rum, 2002), o efeito calman­te do maracujá se deve prin­cipalmente a um alcaloide chamado passiflorina e a um flavonoide chamado crisina. As folhas da planta também possuem uma molécula que ao ser quebrada pela água se transforma em substância tó­xica (ácido cianídrico). Por isso é recomendada a fervura demorada do chá. Doses altas de passiflora e tratamento repetido por lar­gos períodos são desaconse­lhados por especialistas.

- Erva-cidreira

(Melissa offidnalis)
São usadas as folhas. A planta é tradicionalmente in­dicada como calmante em ca­sos de ansiedade e insônia. Contém citronelol, limoneno, linalol, geraniol, triterpenoi­des, fIavonoides, resinas, substâncias amargas e óleo essencial. Também faltam es­tudos sobre a ação da melis­sa no sistema nervoso.

- Mulungu

(Eythrina mulungu)
São usadas as cascas. Tra­dicionalmente empregada para combater ansiedade e insônia. Possui várias classes de alcaloides, inclusive de ação hipotensora, mas faltam pesquisas demonstrando sua ação no sistema nervoso.

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