Limites têm limite?


Livro defende método "mãe tigre" para transformar crianças em "gênios" e encontra público entre pais que não sabem o que fazer para impor disciplina e cobrar resultados dos filhos.

Jornal Folha de São Paulo - por Iara Biderman

Chame seu filho de lixo quando ele fizer algo que vo­cê desaprova. Exija que nun­ca tire menos do que nota dez no boletim. Proíba que parti­cipe de atividades recreati­vas, a não ser que ganhe uma medalha por isso. E que seja a de ouro, claro. É uma lista desse tipo (mais itens daqui a pouco) que explica por que os chine­ses conseguem criar filhos excepcionalmente bem-su­cedidos na escola e na carrei­ra, segundo Amy Chua, nor­te-americana descendente de chineses e professora de direito na Universidade Yale.

A autoridade para falar da educação de crianças vem da experiência própria. "Eu pos­so dizer [o que fazem esses pais para produzir tais talen­tos] porque eu fiz com minhas filhas", afirma Chua na introdução de seu livro "Bat­tle Hymn of the Tiger Mo­ther" ("Grito de Guerra da Mãe Tigre", Penguin Press). No decorrer do livro, ela não poupa exemplos dos triunfos das meninas, So­phia, 18, e Louisa, 15, o que justificaria suas teses.

Se a eficácia do método de educar filhos gera muita con­trovérsia, a estratégia de marketing foi definitivamen­te bem-sucedida, A editora do livro negociou com o ""Wall Street Journal" a publi­cação de um extrato do livro, devidamente bombástico, três dias antes do lançamen­to, no início deste mês. Quando o livro foi posto à venda, já havia mais de 5.000 comentários sobre a matéria na internet. Nin­guém precisa ser gênio para saber que se tornou um best­-seller instantâneo - apesar das fragilidades do livro ao tratar uma questão crucial.

A dificuldade de discipli­nar, impor limites e cobrar os filhos é uma das grandes preocupações atuais,e as de­clarações de Chua tocam em um nervo sensível dos pais. Afinal, se a abordagem flexí­vel e mais complacente não está dando certo, será que a rigidez extrema é a solução?

• Exemplos vazios

O problema é que nem os exemplos servem para algo - a não ser que ameaçar queimar bichos de pelúcia se a filha não praticar seis horas de violino ou ter dinheiro para contratar os melhores vio­linistas do mundo para aulas particulares sejam "méto­dos" reproduzíveis. "Do ponto de vista científico, ninguém pode estabele­cer opiniões utilizando os próprios filhos como exem­plo. É um princípio básico", diz o psiquiatra e psicanalis­ta Wagner Ranfia, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Além disso, Ranfia afirma que a educação é focada no sujeito, não em um parâme­tro massificado (e provavel­mente estereotipado) como o modelo chinês. Que por seu lado, também pode se tomar um pesadelo para os pais.

Um estudo do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA mostrou que o risco de suicídio entre universitários é duas a três maior nos descendentes de asiáticos. Estudiosos do fe­nômeno apontam a pressão por desempenho como uma das maiores causas. Para a educadora Gisela Wajskop, presidente do Insti­tuto Superior de Educação Singularidades, o modelo até pode dar certo, dependendo de quem você quer formar. "Essa discussão casa mui­to bem com uma geração de pais que quer saber como cuidar dos filhos sem ter tem­po e como fazer com que o fi­lho tenha tanto sucesso quanto eles, ou mais."

A psicóloga e colunista da Folha Rosely Sayão lembra que escolhas como só estu­dar ou treinar um instrumen­to e tirar o tempo de brincar ignoram a criança no presen­te e jogam todas as fichas em um futuro que ninguém ga­rante que vai acontecer. "Qualquer tipo de educa­ção tem limites, que podem ser mais estreitos ou alarga­dos. Mas educar significa co­locar na vida, investir pesa­damente em valores, sociali­zação, virtudes e aprender a sobreviver ao fracasso." Wajskop, que se considera meio "linha-dura", diz que dá mesmo muito trabalho. "Sou a favor da disciplina, mas não dá para seguir esse discurso sem pensar. Crian­ça não é cachorro, nem sem­ pre dá certo."

• Sem chão

Contenção, responsabilidade, organização e treino são pontos essenciais na educação, diz Wajskop. ""A sociedade e as escolas estão experimentando formas de lidar com isso, mas ainda es­tão sem chão." Não há receita pronta. ""As pessoas querem acreditar que alguns livros vão dar isso, mas eles só criam fumaça", diz a psiquiatra Maria Conceição do Rosário, pro­fessora associada do Centro de Estudos da Criança da Universidade Yale.

Em sua defesa, Amy Chua diz que não se propôs a escre­ver um manual de como edu­car as crianças. Esqueceu-se de combinar isso com a edi­tora, que imprimiu em cores marcantes na contracapa da edição norte-americana "Co­mo ser uma mãe tigre". A autora afirma que sua in­tenção foi escrever um livro de memórias. Para quem gosta do gênero, um aviso: Chua não tem "mão pesada" só na educação das filhas, mas também no estilo.

O resultado é equivalente a passar duas horas ouvindo uma amiga falar sem parar de todos os prodígios dos fi­lhos sensacionais (dela). Tudo isso torna mais digna de nota a estratégia de mar­keting, milimetricamente controlada. Por exemplo, a autora n&ati ilde;o concedeu entre­vista à Folha porque, como escreveu sua agente literária, só falará com os jornalistas quando o livro for lançado no Brasil, no segundo semestre. Será que todo o barulho em tomo da "mãe tigre" con­tinua até lá?

• 10 proibições da mãe durona

O que Amy Chua nunca deixou suas filhas fazerem

1 - Brincar na casa de amigos
2 - Tirar notas menores que 10
3 - Tocar qualquer instrumoneto exceto piano e violino
4 - Praticar piano ou violino por menos de 2 horas seguidas
5 - Ver TV ou jogar no computador
6 - Escolher suas atividades extracurriculares
7 - Participar de peças teatrais na escola
8 - Reclamar por não participar das peças
9 - Participar de atividades além daquelas em que se possa ganhar medalhas
10 - Ganhar menos do que a medalha de ouro nessas atividades

• Para pensar

Segundo especialistas, não dá para seguir regras como se fossem receita de bolo.

- Brincar com os amigos e frequentar a casa deles fazem parte da socializa­ção das crianças. ajudam cada uma a reconhecer o seu espaço e o do outro e a aprender limites.
- É importante a criança se esforçar. mas a pressão para que seja melhor do que todo mundo não leva em conta um dado da realidade: sempre pode haver alguém melhor e não há pressão que possa modificar esse fato.
- Pais podem e devem fazer as escolhas que julgam melhores para seus filhos e ensiná-los a persistir, mas precisam ter sensibilidade para decidir em que investir e por quanto tempo.
- O problema não é deixar a criança frustrada por não participar de algo. A questão é ajudá-Ia a lidar com a frustração (o que não é a mesma coisa de proibir que a criança reclame)

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