Malditas férias!


Descobertas recentes de pesquisas sobre o prazer na Universidade de Yale surpreendem.

Revista ÉPOCA Negócios.

Se você perguntar, a maioria provavelmente vai dizer que tirar férias é algo mais prazeroso do que o expediente. Uma pesquisa do Departamento de Psicologia da Universidade de Yale revelou que, na realidade, sucede o oposto. O nível de estresse tende a aumentar durante as férias. Brigas conjugais, ou as rusgas com os filhos, são mais comuns durante os períodos supostamente de descanso e lazer. Em contrapartida, a rotina diária do escritório é, sim, muito prazerosa para a maioria — mais do que admitido. Ainda que, nas lembranças, as férias se confundam com prazer. Um enigma insolúvel?

Sem mais digressões, o psicólogo Paul Bloom arriscou uma resposta a essa charada. Segundo afirma, nosso prazer não é puramente sensorial. Apreciamos um bom filé, ou a ópera A Flauta Mágica, de Mozart, não somente pelo gosto da carne ou pela qualidade musical das árias, mas sim por algo que Bloom chama de “essencialismo” do objeto de prazer. Internamente, formamos um conceito sobre os objetos e as experiências que nos cercam. Estes conceitos pesam em nossa avaliação do prazer. O conceito mental de “férias” é muito bom. Logo, para que as férias do mundo real sejam consideradas “ruins”, elas têm de ser de fato desastrosas, como a comédia pastelão Férias Frustradas, de Chevy Chase.

Engana-se quem pensa que Bloom seja um platônico enrustido, disfarçando alguma Teoria dos Arquétipos com neurociência. A questão do prazer e da felicidade nos acompanha desde sempre, e Bloom juntou psicologia, filosofia, economia e neurociência para tentar elucidá-la, ou ao menos lançar alguma luz sobre ela.

Como nascem esses conceitos “essenciais”? O cérebro humano foi desenhado para a vida da época do Cro-Magnon. Desenvolvemos, ao longo da evolução, alguns truques cognitivos à negociação diária com o mundo físico e social. Saber de antemão que “tal coisa era boa”, ou “tal coisa era ruim”, tornava-se vital para a sobrevivência. Sem isso, morreríamos feito moscas. A imperiosidade desapareceu, mas o cérebro não abandonou o hábito de formar conceitos sobre tudo. Os tais conceitos “essenciais”. Esse gosto essencial está por trás da nossa afeição por coisas objetivamente ruins. Por exemplo, o ser humano é o único animal que aprecia o gosto do molho Tabasco. Sensorialmente, ele seria repugnante, como o é para cavalos, porcos ou gatos. Porém, o consumidor de temperos picantes tem gratificada a sensação de resiliência, de “sobreviver” a uma experiência extrema ao ardido da pimenta. É uma sensação “essencial” comum aos apreciadores de bebidas destiladas.

Também está provado, diz Bloom, que a criação dos filhos mais nos aborrece do que alegra. Porém, a necessidade biológica fala mais alto. “Nós achamos que as crianças nos tornam felizes, por mais que a experiência nos mostre o contrário" diz Bloom. Essa tendência humana também explica o gosto pela ficção. “O maior tempo que gastamos com prazer não é em sexo, comida, bebida, esportes, drogas ou com amigos, mas sim imaginando outras vidas — lendo romances, vendo filmes ou televisão: participando de experiências irreaïs”, diz Bloom. Essas experiências dão vazão externa a uma realidade interior. No cérebro humano, nota o psicólogo, convivem múltiplos egos.

O sucesso de mundos alternativos virtuais, como o Second Life, são explicados por esta necessidade essencial. Por fim, um dos principais conceitos "essencialistas” é o da autenticidade. Ao apreciar uma obra de arte, por exemplo, acreditamos que uma parte da essência daquele artista está impregnada na obra. Bloom fez o teste. Levou apreciadores a uma exposição do pintor holandês do século 17, Vermeer. Um dos quadros em exposição — A Mulher Adúltera — era obra do famoso falsário Han van Meegeren. A sensação de enlevo desaparecia nas pessoas quando lhes era dito que se tratava de uma falsificação.

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