Memória: como era mesmo a música?


O esforço para se lembrar de uma melodia, uma letra ou um refrão ilustra como a memória funciona.

Jornal Folha de São Paulo - por Suzanna Herculano-Houzel*

Você já tentou se lembrar de uma música enquanto outra está tocando? É pos­sível, mas é preciso um es­forço consciente para supri­mir a que está entrando pe­los ouvidos.

A tarefa fica ainda mais dificil se a música que você tenta recordar for parecida com á que está ouvindo; aí pode ser preciso parar o dis­co (ou o iPod, vá lá) antes que seus neurônios consi­gam reativar o padrão da melodia que você procura. O esforço para lembrar conscientemente de uma música ilustra como a me­mória funciona: por associa­ção, usando os mesmos ele­mentos ocupados pelos sen­tidos, e com registros inde­pendentes da formação da memória ("eu sei que eu me lembro dessa música") e da memória em si (a música).

A associação permite que ouvir o comecinho da músi­ca traga todo o resto de vol­ta - ou que você só consiga lembrar do refrão se primei­ro passear mentalmente por toda a melodia inicial. Co­mo um novelo de lã, é preci­so achar o fio da meada: al­guma "ponta" da música, representada por algum conjunto de neurônios em seu cérebro, que permita puxar consigo todos os outros até chegar naquele pedaço de música que você busca.

Por isso, também, melodias se confundem: por fun­cionarem associando sons, como notas umas depois das outras, os mesmos neurônios podem participar da representação de mais de uma melodia.

E, se esses neurônios es­tiverem ocupados com a que entra pelos ouvidos no mo­mento, será difícil arrancá­-los do seu trabalho da vez para evocar a melodia da qual você quer se lembrar. Por isso a lembrança vem mais facilmente quando a música exterior acaba. Mas talvez a melodia não se materialize imediatamen­te e, em seu lugar, fique aquela sensação de "ponta da língua" musical.

Dá quase nervoso essa sensação de eu-sei-que-eu­ sei-mas-não-consigo-lem­brar-o-que-eu-sei: é prova de que a memória não é uma coisa só, mas um conjunto de sistemas que armazenam cada um a melodia da mú­sica, ou as palavras, ou on­de e com quem você mais ou­via a música, ou as emoções que ela despertava - e por isso você se lembra de umas coisas antes das outras.

Até que, do meio do nada, a melodia surge em seus ou­vidos mentais. Uma vez ini­ciado conscientemente ("co­mo é mesmo aquela músi­ca?"), o processo de evoca­ção de memórias musicais não precisa mais da sua atenção para continuar. Sua rádio interna toca sozinha ...

* Neurocientista, é professora da UFRJ e autora de "Pílulas de Neurociência Para Uma Vida Melhor" (ed. Sextante) e do blog www.suzanaherculanohouzel.com

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