Nerd é um empreendedor nato


Para Silvio Meira, o maior desafio é converter criatividade em empresas. Para o especilista a lição de Zuckerberg, do Facebook, e de Biz Stone, do Twitter, é ver a empresa como produto.

Jornal Folha de São Paulo - por Camila Fusco

Na semana em que a Cam­pus Party coloca em evidên­cia o potencial de inovação dos apaixonados por tecno­logia, discute-se também o potencial de converter essa criatividade em negócios. Para Silvio Meira, chefe do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar) e colunista da Folha, os afi­cionados em programação, computação e internet - co­nhecidos como "nerds" - já têm a característica nata de empreendedorismo de co­nhecimento. O desafio é conseguir esti­mulá-los para transformar seu conhecimento em em­presas.

Folha - Na esteira de negócios importantes como Facebook e Twitter, que nasceram de aficcionados por tecnologia, como definir o termo nerd?

Silvio Meira - Nerd é um empreendedor nato O nerd é quem tem conhecimento aci­ma da média numa área. É o que era antigamente o filóso­fo. O nerd de hoje é um filóso­fo prático, que implementa coisas em tecnologia.

Folha - Qual o potencial empreende­dor de um nerd?

Silvio Meira - Nerds são empreendedo­res natos, mas de conheci­mento. Ele usa seu tempo pa­ra aprender coisas importan­tes. Mas ser nerd não é sinô­nimo de desenvolver empre­sas de sucesso.

Folha - Como transformar essa capa­cidade em negócios?

Silvio Meira - É necessário que alguém ajude a pensar em como você estrutura um produto.

Folha - O que nomes de internet co­mo Mark Zuckerberg, do Fa­cebook, e Biz Stone, do Twit­ter, têm a ensinar à nova safra de empreendedores de tec­nologia?

Silvio Meira - Acho que Biz Stone é o me­lhor exemplo de que o empreendedor de verdade é se­rial. Um empreendimento é um produto como outro qualquer. A empresa do em­preendedor é um produto. Ele não é dono, é sócio. O em­preendedor é capaz de desis­tir porque não valeu a pena. Você pode ser um empreen­dedor apaixonado, mas a pa­lavra "empreendedor" tem que vir antes.

Folha - Eventos que reúnem muitos especialistas num assunto, como a Campus Party, podem ajudar?

Silvio Meira - Não sei se a Campus Party já faz esse papel de feira de negócios. O que precisamos ir atrás, de forma mais inten­sa, é de ambientes não só de trocas de experiências técnicas, mas ambientes que per­mitam o desenvolvimento de oportunidades duradouras.

Folha - As incubadoras podem fazer esse papel?

Silvio Meira - Sim. Hoje no Porto Digital, por exemplo, temos 150 em­presas, dois institutos de ino­vação, quatro fundos de in­vestimento. São pessoas pen­sando em tecnologia e negó­cios o tempo todo.

Folha - É missão das incubadoras incentivar como esses em­preendedores devem pensar nas empresas?

Silvio Meira - As incubadoras têm que mudar radicalmente. Há di­ferença de incubar tecnolo­gias versus incubar negó­cios. Por que sai tanta gente interessante de Stanford e Harvard? Porque concen­ tram pessoas que têm dispo­sição para aprender.

Folha - Muitos acreditam que o pró­ximo Google sairá do Brasil. O sr. acredita nisso?

Silvio Meira - O que seria o próximo Goo­gle? Seria uma empresa com capitalização de mercado na ordem de US$ 100 bilhões. Para construirmos uma em­presa com esse perfil a partir . do Brasil, seria necessário que a cadeia de valor de di­nheiro inteligente conectado - investidores que conhe­cem o negócio - fosse muito mais densa, com mais inves­tidores. Por enquanto não te­mos uma cadeia densa de in­vestimentos. Se vamos ter, eu ainda não sei. Precisamos esperar para ver.

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