No meio do cérebro, o enigma da criatividade


Jornal Folha de São Paulo - por Patricia Cohen

Enumere em um minuto todos os usos criativos para um tijolo que conseguir imaginar. A questão é parte de um clássico teste de criatividade, algo que os cientistas estão tentando pela primeira vez mapear no cérebro. Eles esperam descobrir precisamente quais compostos bioquímicos, impulsos elétricos e regiões foram acionados quando, digamos, Picasso pintou “Guernica”. Usando tomografias por ressonância magnética (MRI), os pesquisadores estão monitorando o que ocorre no cérebro de pessoas durante tarefas criativas.

Mas as imagens dos sinais brilhando nos lóbulos frontais levaram os cientistas a reexaminar a própria forma como a criatividade é mensurada em laboratório.

“Criatividade é meio como pornografia — você reconhece quando vê”, disse Rex Jung, da Rede de Pesquisas da Mente, em Albuquerque (EUA). Jung, professor e pesquisador-assistente do Departamento de Neurocirurgia da Universidade do Novo México, disse que sua equipe está fazendo a primeira pesquisa sistemática sobre a neurologia do processo criativo, incluindo sua relação com a personalidade e a inteligência.

Como muitos pesquisadores nos últimos 30 anos, Jung se baseava numa definição comum de criatividade: a capacidade de combinar novidade e utilidade em um contexto social particular.

No entanto, conforme o estudo da criatividade se expande para incluir a neurologia cerebral, alguns cientistas questionam se essa definição padrão e os testes para ela ainda fazem sentido. John Kounios, psicólogo da Universidade Drexel, de Filadélfia, argumenta que o padrão “sobreviveu à sua utilidade”.

“A criatividade é um conceito complexo, não uma coisa única”, disse ele, acrescentando que os pesquisadores do cérebro precisaram dividi-la em suas partes integrantes. Kounios, que estuda a base neurológica do entendimento, define a criatividade como sendo a capacidade de reestruturar a própria compreensão de uma situação de uma forma não óbvia.

Todo o mundo concorda que não existe uma mensuração única para a criatividade. Os exames de QI, embora polêmicos, são considerados ainda um teste confiável para ao menos certo tipo de inteligência, mas não há um equivalente quando se trata da criatividade.

O laboratório de Jung usa uma combinação de medições como equivalentes para a criatividade. Um deles é o Questionário de Realizações da Criatividade, que convida as pessoas a relatar suas próprias aptidões em dez campos, como artes visuais, música, escrita criativa, arquitetura, humor e descoberta científica.

Outro é um teste de “pensamento divergente”, uma medição clássica desenvolvida pelo psicólogo J.P. Guilford. Nele, a pessoa é orientada a apresentar funções “novas e úteis” para um objeto familiar, como um tijolo, um lápis ou uma folha de papel.

A equipe de Jung também apresenta situações estranhas. Imagine que as pessoas pudessem mudar de sexo instantaneamente, ou que as nuvens tivessem cadarços. Quais seriam as implicações?

Em outra avaliação, a pessoa tem de descrever o sabor do chocolate, ou escrever uma legenda para um cartum humorístico.

As respostas são usadas para gerar o que Jung chama de “Indice Composto da Criatividade”. Os testes de Jung se baseiam naqueles criados por Robert Sternberg, um dos principais pesquisadores da inteligência nos EUA e o homem parcialmente responsável pela definição padrão de criatividade.

Sternberg usa testes semelhantes na Universidade Tüfts, de Massachusetts, onde investiga como as pessoas desenvolvem e dominam habilidades.

Ele explicou que sua equipe pede que as pessoas pensem no que teria acontecido, digamos, se a negra Rosa Parks tivesse cedido seu assento a um homem branco quando aquele motorista de ônibus de Montgomery mandou que ela se mudasse (episódio emblemático, em 1955, da luta pela igualdade racial nos EUA), ou se Hitler tivesse vencido a Segunda Guerra Mundial.

Quanto a Jung, sua pesquisa tem produzido resultados surpreendentes. Um estudo com 65 pessoas sugere que a criatividade prefere caminhos mais lentos e sinuosos que a inteligência.

No caso da inteligência, explicou Jung, “o cérebro parece ser uma super-rodovia eficiente, que o leva do ponto A para o ponto B”.

“Mas nas regiões do cérebro relacionadas à criatividade parece haver muitas estradinhas auxiliares com desvios interessantes e pequenas vicinais sinuosas”, agregou.

John Gabrieli, professor de neurociência cognitiva do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), adverte que sempre há uma lacuna entre o que ocorre no laboratório e no mundo real. “Parece que ser criativo é ser algo para o qual não temos um teste.”

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