Novo ramo da psicologia mostra efeito da autocompaixão na saúde


Ser tolerante consigo mesmo reduz ansiedade e facilita até dieta.

Jornal Folha de São Paulo - por Tara Parker-Pope

Você se trata tão bem quanto trata seus amigos e familiares? Essa pergunta está na base de uma nova e crescente área de pesquisa psicológica intitulada autocompaixão, que avalia a benevolência com que as pessoas se veem.

Pesquisas sugerem que aceitar as próprias imperfei­ções é o primeiro passo para uma saúde melhor. Pessoas com notas altas em testes de autocompaixão têm menos depressão e ansiedade. Dados preliminares sugerem que a autocompaixão ajuda até a perder peso. Essa ideia parece contradi­zer os conselhos de médicos e livros de autoajuda, que su­gerem que autodisciplina le­va a uma saúde melhor.

Segundo Kristin Neff, pio­neira nesse campo, a maior razão pela qual as pessoas não têm mais compaixão por si mesmas é o medo de se tor­narem auto indulgentes. "Elas acreditam que é a au­tocrítica que as mantém na li­nha. A maioria das pessoas se equivoca, porque nossa cultura recomenda que seja­ mos intransigentes", afirma
Neff, professora de desenvol­vimento humano da Univer­sidade do Texas, em Austin

• Excesso de crítica

Imagine como você reagi­ria a uma criança com pro­blemas na escola ou que co­me junk food demais. Muitos pais ofereceriam ajuda a ela. Mas quando adultos se encontram em situações seme­lhantes, muitos caem em um ciclo de autocrítica e negatividade. Isso os deixa ainda menos motivados para efe­tuar mudanças. "A razão pela qual você não deixa seu filho comer cinco potes de sorvete é que você se preocupa com ele. Se você se preocupa consigo mesmo, faz o que é saudável e não o que fará mal."

O livro da psicóloga, "Self­ Compassion: Stop Beating Yourself Up and Leave Inse­curity Behind" ("Autocom­paixão: pare de se criticar e deixe a insegurança para trás") será publicado nos EUA em abril. A obra traz 26 afirmações que visam determinar a fre­quência com que as pessoas se tratam com bondade e descobrir se elas reconhecem o fato de que altos e baixos fazem parte da vida.

Uma resposta positiva à afirmação "desaprovo mi­nhas próprias falhas e inade­quações e me avalio mal por isso", por exemplo, aponta para falta de autocompaixão. Nesse caso, ela sugere escrever uma carta de apoio para si mesmo ou listar suas quali­dades e defeitos, lembrando que ninguém é perfeito. Se tudo isso soa um pouco
tolerante demais, há evidên­cias científicas que confir­mam a validade da teoria. Uma pesquisa na Universi­dade Walke Forest convidou 84 mulheres a comer donuts. Para um grupo, o instrutor disse: "Todo o mundo que participa do estudo come is­to, então não há razão para você se sentir mal por isso." Para outro grupo, ele não dis­se nada. Resultado: o primei­ro grupo, com menos culpa, comeu menos.

"O problema é que é difícil desaprender os hábitos de to­da uma vida", afirma Neff.

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