Novo remédio diminui sequelas do AVC


Experimento feito em macaco conseguiu preservar o tecido cerebral e reduzir problemas motores após isquemia.

Jornal Folha de São Paulo - por Giuliana Miranda

Tratamento pode ser aplicado até três horas depois do derrame; cientistas dizem que ele deve servir em humanos. Pesquisadores criaram um novo tratamento contra as se­quelas do AVC (acidente vas­cular cerebral) com chances de ser eficiente em humanos. O feito é considerado muito difícil, e quase não há alter­nativas para enfrentar o pro­blema hoje.

Em experimento com cino­molgos (macacos asiáticos que têm o sistema nervoso muito parecido com o de hu­manos), os cientistas tiveram sucesso em reduzir os danos
cerebrais e outras sequelas após os derrames. Os pesquisadores conse­guiram inibir parcialmente a morte de neurônios que nor­malmente acontece depois de um problema desse tipo.

Para isso, eles injetaram nos bichos, algum tempo de­pois da isquemia, um inibi­dor da proteína PSD-95, que está ligada à morte de neurô­nios depois de um AVC. O efeito da droga foi medido com ressonância magnética. Um dia após o AVC, os macacos que receberam esse ini­bidor até uma hora depois do derrame tiveram perda de te­cido cerebral 55% menor do que os que receberam place­bo. Ao se levar em conta os 30 dias subsequentes, a per­da foi 70% menor.

O estudo, publicado na úl­tima edição da "Nature", também mostrou que os ani­mais tiveram melhora nas funções cerebrais. Os bichos tratados com a droga se saíram bem em testes de comportamento e de desenvolvimento feitos pelos pesquisadores.

• Difícil

O AVC isquêmico é causa­do pela obstrução das arté­rias cerebrais. Ele pode lesio­nar áreas do cérebro e causar sequelas nos movimentos e em funções como a fala. Ele é uma das principais causas de morte e de afastamento do trabalho no mundo. As tentativas de usar uma substância para reduzir os impactos do AVC no cérebro tiveram fracasso generaliza­do nos últimos anos.

Embora os cientistas te­nham tido bastante sucesso em experiências com roedo­res, os mais de mil experi­mentos realizados nas últi­mas décadas não consegui­ram replicar o êxito em seres humanos.

A alternativa disponível hoje é o tPA (ativador do plas­minogênio tecidual), que atua desbloqueando os vasos sanguíneos. A droga, porém, só faz efeito se for ministrada até 90 minutos após a isque­mia, o que limita bastante seu uso, uma vez que boa parte dos pacientes não consegue recebê-Ia a tempo.

O inibidor de PSD-95, no entanto, mostrou ser eficien­te para evitar as sequelas mesmo se aplicado até três horas depois do acidente vas­cular cerebral. O trabalho, conduzido por, Michael Tymianski e colegas do Instituto de Pesquisa do Hospital Ocidental de Toron­to, no Canadá, é otimista quanto à aplicação da droga em seres humanos.

"A menos que existam di­ferenças fundamentais rele­vantes entre esses prima tas[macacos cinomolgos] e hu­manos, que ainda são desco­nhecidas, a neuroproteção usando inibidores de PSD-95 em humanos também deve ser factível", diz o estudo.

• Proteção cerebral

Nova abordagem traz esperança contra derrames.

- O que é o AVC

O acidente vascular cerebral é uma alteração no fluxo de sangue no cérebro que prejudica a sua oxigenação e pode deixar sequelas.

- Como foi o estudo

1 - Substância

Os cientistas ministra­ram uma substância que diminui a morte de neurônios imediatamente após o derrame cerebral em cinomol­gos (macacos asiáticos).

2 - Resultado

Imagens de ressonância magnética do cérebro dos macacos mostraram que as funções cerebrais dos primatas que receberam a substância protetora sofreram menos danos que os demais.

3 - Sequelas menores

Em testes comporta­mentais, os bichos também mostraram mais sucesso em capacidades cognitivas e movimentação.

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