Nutrição: Guerra os refrigerantes


Sucos adoçados e refrigerantes viram alvo preferencial do combate à obesidade; novos estudos ligam o consumo frequente a um efeito maior sobre o peso de quem tem risco genético de engordar.

Jornal Folha de São Paulo - por Débora Mismetti

Agora é culpa é do refrige­rante. A ligação entre o con­sumo da bebida e dos sucos adoçados e a obesidade é te­r ma de três estudos e de um editorial publicados ontem no periódico "New England Journal of Medicine".

Os trabalhos aparecem uma semana depois de Nova York ter aprovado uma norma que vai proibir a venda de bebidas açucaradas com mais de 437 ml em restauran­tes, lanchonetes e cinemas, em uma tentativa de estancar o crescimento constante dos indicadores de obesidade.

Nos EUA, até 2030,44% da população será obesa - hoje 35% estão nessa faixa. No Brasil, 15,8% dos adultos são obesos e quase metade está acima do peso. Uma das novas pesquisas, feita pela Escola de Saúde Pública da Universidade Har­vard, analisou o consumo de bebidas adoçadas, o índice de massa corporal e genes as­sociados à obesidade de três grupos de pessoas somando 33 mil mulheres e homens.

Eles foram divididos de acordo com a frequência do consumo de refrigerantes e sucos adoçados. Segundo os autores, o con­sumo mais frequente de be­bidas açucaradas foi associa­do a uma predisposição ge­nética maior a um índice de massa corporal mais alto e ao risco de obesidade. A relação entre obesidade e maior risco genético foi muito maior entre os que be­biam refrigerantes todo dia do que nos grupos que con­sumiam menos de uma vez por mês. Isso significa, de acordo com os pesquisado­res, que esse hábito pode am­pliar o efeito do risco genéti­co à obesidade.

Os outros dois estudos publicados ontem mostram os beneficios de substituir os re­frigerantes e sucos com açú­car para reduzir o índice de massa corporal de crianças e adolescentes.

• Vilões líquidos

Para a nutricionista funcio­nal Daniela Jobst, faz sentido centrar fogo nos refrigeran­tes e sucos industrializados no combate à obesidade. "O refrigerante é importan­te porque as pessoas bebem muito e ficam viciadas. Para alguns pacientes que atendo, a hidratação do dia é refrige­rante ou bebida com açúcar." O açúcar, de fácil absorção, coloca o corpo em uma "gan­gorra" metabólica. "As bebidas adoçadas au­mentam muito rápido a pro­dução de insulina. Essa ele­vação dá o comando para colocar açúcar nas células. Quanto mais você estimula a produção de insulina, mais vai colocar açúcar nas célu­las e armazenar gordura." A repetição desse proces­so vezes demais pode levar ao desenvolvimento de dia­betes tipo 2, diz a nutricionis­ta.

"Outra preocupação são os corantes e os conservan­tes dos industrializados, que estimulam uma resposta inflamatória no corpo." O nutrólogo Celso Cukier lembra também que o refri­gerante, mesmo contendo carboidratos, não traz a sen­sação de saciedade, aumen­tando o risco de uma inges­tão exagerada de calorias. Mas, para ele, é possível in­cluir essas bebidas na dieta de uma forma moderada. "Não acredito na imposição de uma proibição."

• Gangorra metabólica

Veja como o açúcar das bebidas passa pelo organismo:

1 - O refrigerante passa pelo sistema digestivo, que converte o açúcar para formas mais simples, as quais vão para a corrente sanguínea.
2 - Quando a taxa de açúcar no sangue sobe, o pâncreas produz insulina para fazer o nutriente entrar nas células e ser usado como energia ou guardado em forma de gordura.
3 - Alimentos com alto índice glicêmico aumentam a taxa de açúcar no sangue muito rápido, levando a uma alta produção de insulina.
4 - Essa insulina em doses altas reduz rapidamente o nível de açúcar no sangue.
5 - Alimentos com baixo índice glicêmico são mais "difíceis" de serem digeridos e aumentam a taxa de açúcar de forma mais lenta. A queda tabém é mais lenta.

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