Obesidade: pode culpar seu cérebro


Um novo estudo sugere que, nos obesos, ele está programado para tornar a comida mais atraente.

Revista Veja - por Alexandre de Meio

A gora é científico. O mesmo san­duíche, recheado com um su­culento pedaço de picanha, en­volto em uma generosa fatia de queijo derretido, é mesmo mais apetitoso para uma pessoa com quilos a mais na balança do que para um magro. E a culpa, aponta uma nova pesquisa, é do cérebro dos gor­dinhos. Ele estaria programado para co­biçar mais do que o cérebro dos magros os alimentos altamente calóricos, como hambúrguer, batata frita e biscoito.

A evidência veio de pesquisadores da Universidade Yale, nos Estados Unidos, uma das mais prestigiadas do mundo. A equipe liderada pela bioquímica Kathleen Page e pela psiquiatra Dongju Seo com­parou o funcionamento do cérebro de cinco obesos e de nove magros. Enquan­to eles eram submetidos a um exame de ressonância magnética, que mapeia as áreas do cérebro em ação, os voluntários observavam uma sequência de imagens de comidas gordurosas.

O exame foi repetido algumas vezes. Quando magros e obesos estavam com fome de verdade, porque fazia tempo que tinham se alimentado, o cérebro de ambos indicava o mesmo padrão de ati­vação. As áreas mais acionadas eram do sistema límbico, encarregado pela sensa­ção de prazer quando conseguimos algo que desejamos. A explicação é evolutiva: fomos programados para sentir prazer quando saciamos a fome - uma forma de evitar morrer de fome.

Quando os pesquisadores injetaram gli­cose nos voluntários para simular no or­ganismo o efeito de saciedade após uma refeição, o padrão de ativação cerebral mu­dou. Nos magros foram acionadas regiões do córtex pré-frontal, responsável por ta­refas racionais, como planejar atividades e tomar decisões, como "comer ou não co­mer?": Nos obesos, a área racional foi me­nos ativada. "Isso significa que o cérebro dos obesos não consegue controlar o impulso, como faz o dos magros", diz a psiquiatra Rajita Sinha, uma das autoras da pesquisa.

O estudo, publicado na semana passada no periódico científico The Journal oi Clini­cal Investigation, precisará ser replicado por outros cientistas. "O estudo pode trazer no­vas formas de abordar o problema"", afirma o endocrinologista carioca Walmir Coutinho, presidente da Associação Internacional para o Estudo da Obesidade. Por ora, o estudo ajuda a esclarecer que o desafio de emagre­cer não decorre apenas de falta de vontade, como diz o senso comum.

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