Ortotanásia – o que é?


Os médicos têm medo da morte.

Revista ÉPOCA por Cristiane Segatto.

O geriatra que estuda o fim da vida diz que eles precisam entender que aliviar dores físicas é pouco.

Na semana passada, o novo código de ética médica entrou em vigor no Brasil. Ele estabelece que nas situações clínicas irreversíveis e terminais, o médico deve evitar a realização de procedimentos diagnósticos e terapêuticos desnecessários e deve oferecer todos os cuidados paliativos apropriados. Essa prática é chamada de ortotanásia. O geriatra Franklin Santana Santos, de 41 anos, professor visitante da Faculdade de Medicina da USP, é um dos principais estudiosos do assunto no Brasil. Segundo ele, tão importante quanto aliviar a dor física é respeitar necessidades espirituais ou existenciais. Solteiro, Santos vive com os pais em São Paulo. Na sala do apartamento, Jesus Cristo convive com o Buda da medicina, cujo papel seria livrar os seres vivos das doenças exteriores e interiores.

Quem é: nasceu em Vitória da Conquista, Bahia, estudou na LJFBA e fez residência em geriatria na USP. É espírita.

O que fez: pós-doutorado em psicogeriatria no Instituto Karolinska, na Suécia. Estudou saúde e espiritualidade na Duke University, Estados Unidos.

O que publicou: seu livro mais recente é Cuidados paliativos: discutindo a vida, a morte e o morrer (Editora Atheneu).

Época - A partir de agora, os médicos estão autorizados, pelo menos do ponto de vista ético, a praticar a ortotanásia. A forma como eles lidam com pacientes terminais vai mudar?

Franklln Santana Santos - O novo Código de Ética Médica é um avanço. O médico que decidir, por exemplo, não entubar um paciente sem chance de cura não corre mais o risco de ser processado pelo Conselho Regional de Medicina. O profissional que praticar a ortotanásia está respaldado do ponto de vista ético. Mas ele continua sujeito às penalidades da lei. Pode ser acusado de omissão de socorro, eutanásia ou assassinato e ir para a cadeia. Por isso, acho que na prática o novo Código terá pouca repercussão. Enquanto a ortotanásia não for aprovada por uma lei (há um projeto em discussão no Congresso), o médico vai continuar inseguro. Para evitar um processo judicial, vai continuar tomando medidas inúteis.

ÉPOCA - Como saber se é inútil reanimar um paciente que tem câncer e sofre uma parada cardíaca?

Santos - Depende do tempo da doença. Se o câncer foi diagnosticado recentemente e o paciente tem a perspectiva de viver várias semanas ou meses, ele deve ser reanimado. Deve receber todos os recursos tecnológicos que lhe permitam viver com a melhor qualidade possível o tempo que lhe resta. Mas, se o paciente está numa fase terminal — com metástases no cérebro e no pulmão — e sofre uma parada cardíaca, não deve ser reanimado. Reanimá-lo seria cometer distanásia. Ou seja: usar todos os meios possíveis para prolongar a vida do paciente à custa do sofrimento dele. É o que chamamos de tratamento fútil. Isso só acabará quando os médicos se sentirem protegidos pela lei.

Época - Os médicos também insistem em medidas heroicas porque não aceitam fracassar?

Santos - Eles lidam mal com o fracasso e lidam mal com a morte. Os médicos têm medo da morte. Mas não podemos responsabilizá-los por isso. Foram treinados para curar, e não para cuidar. Das 181 faculdades de medicina do Brasil, apenas uma (a Faculdade de Itajubá) tem na graduação a disciplina obrigatória de tanatologia (estudo da morte).

ÉPOCA - Embora a morte faça parte da rotina dos médicos, eles evitam refletir sobre ela?
 
Santos - Os médicos, assim como toda a sociedade, têm fobia da morte. É esse medo de falar de morte que emperra também a expansão dos cuidados paliativos no Brasil. Não dá para falar em cuidados paliativos sem falar em morte. O Ocidente lida muito mal com a morte. Nossa cultura é pautada no viver. Todo mundo quer ser jovem, bonito e rico. Refletir sobre a morte significa assumir que todos esses valores são efêmeros. Ninguém quer fazer isso. Não há espaço na sociedade para essa discussão. As crianças, já na educação infantil, deveriam aprender a entender a morte como ela é: parte da vida.

ÉPOCA - Muitas vezes é a família que impede que o médico fale sobre a morte?

Santos - Às vezes a família fica atrás do doente, sinalizando para eu não contar a verdade. Cria-se um pacto de silêncio. O paciente sabe que vai morrer, a família sabe a verdade e o médico também. Mas todo mundo finge que está tudo bem. Imagine o que é saber que vai morrer e não poder compartilhar essa angústia nem com o médico nem com as pessoas amadas. É a pior morte que existe. É morrer sozinho, cercado de tanta gente.

ÉPOCA - As dores dos pacientes terminais não são apenas físicas. Aliviá-las também é função do médico?

Santos - Perguntar se o paciente está com dor é o feijão com arroz. Todo médico tem de fazer isso. Mas o médico também deve ser capaz de reconhecer outras dores (psicológicas, sociais, existenciais, espirituais) e buscar alivio para elas. Não interessa que eu não saiba aliviar uma dor espiritual. O importante é que eu a reconheça e pergunte o que posso fazer para amenizá-la. Se o paciente quer assistir à missa na TV, o médico não deve fazer nenhum procedimento no mesmo horário. Se precisa ver o pastor, o médico deve permitir que ele entre. Segundo uma pesquisa do Datafolha, 97% do os brasileiros acreditam em Deus e 86% acreditam em vida após a morte. Ou seja: pelo menos oito em cada dez pacientes têm necessidades espirituais. O médico precisa atender às necessidades dos doentes que estão diante da morte.

ÉPOCA - Existe boa morte?

Santos - Os americanos, que são bastante pragmáticos, enumeraram as condições da boa morte. As principais são: não ter sofrimento, estar rodeado pelas pessoas amadas, ter autonomia e permitir que a doença siga seu curso sem interferências extraordinárias da ciência. A beleza da morte é que ela nos desnuda completamente. A morte obriga a pessoa a ser ela mesma, a se aceitar como é. Já vi muitos religiosos aflitos diante da morte porque a espiritualidade deles era pregada, mas não era vivida. Por outro lado, vejo ateus que morrem muito bem. Convictos de que tudo acabou. Eles sentem que fizeram tudo o que podiam, que gozaram a vida e ela foi muito boa. Quando a pessoa sente que a vida teve um sentido, ela morre bem. Não importa se acredita em Deus ou não. Quem vive bem, morre bem.

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