Os mistérios da hipermemória


Lembranças provocam sensações contraditórias, em alguns momentos são fonte de aflição, em outros ponto de partida, para autodescoberta e criação pessoal.

Revista Mente & Cérebro por Moacyr Scliar.

Recentemente foi lançado o livro A mulher que não consegue esquecer. A obra conta a história de Jill Price, californiana de 45 anos que sofre da raríssima síndrome de hipermemória: é capaz de lembrar com detalhes todos os dias de sua vida desde a adolescência. Identificada apenas pelas iniciais A.J., Jill Price teve seu caso estudado por três pesquisadores: Elizabeth Parker Larty Cahill e James McGaugh, todos da Universidade da Califórnia em Irvine. Para designar a síndrome introduziram o termo hyperthymestic (do grego hyper,muito, e thymesis, lembrar). O distúrbio tem duas características marcantes: a pessoa usa uma grande parte de seu tempo para evocar o próprio passado — é algo obsessivo-compulsivo, e tem uma extraordinária capacidade de evocar eventos específicos. Jill Price consegue lembrar as datas de todas as Páscoas dos últimos 24 anos, fatos históricos e acontecimentos publicados na imprensa nas últimas décadas, sua memória é “um filme que nunca para", é “incontrolável e automática”. Coisa que ela notou muito cedo: em 1974, quando tinha apenas 8 anos. De 1980 para cá ela afirma poder recordar cada dia. E não se trata de técnicas mnemônicas, como as que muitas vezes usamos para lembrar nomes ou datas importantes para nós.

As pessoas com hipermemória evocam detalhes que, para outros, parecem absolutamente triviais. Se recebem uma data são capazes de lembrar-se de eventos ocorridos naquele dia, em detalhes, como estava o tempo e assim por diante. Os pesquisadores não identificaram a causa da síndrome de supermemória, mas acreditam que seja uma falha nas atividades cerebrais que elimina a recordação de fatos supérfluos. Condição similar já havia sido descrita pelo psicólogo russo
Aleksandr Luria no famoso livro A mente de um mnemonista. O autor aborda o caso do jovem Solomon Shereshevskii, que, para esquecer algo, tinha de fazer um esforço consciente.

“A hipermemória tem um custo”, diz o neurocientista Ivan Izquierdo, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS). Em primeiro lugar, a memória nem sempre pode ser usada com finalidades criativas, depois, não é bom evocar com frequência momentos ruins da existência, as humilhações, as derrotas, esquecê-las, ou reprimi-las, como se diz em linguagem psicanalítica, é um mecanismo de defesa do ego. Penosas lembranças fazem parte, por exemplo, do transtorno do estresse pós-traumático, que acomete os que passaram por guerras, violência física ou catástrofes como terremotos e inundações. Essas pessoas têm ansiedade, pesadelos, são perseguidas por suas recordações. Na hipermemória a realidade imita a ficção, como mostra o famoso conto de 1944 Funes, o memorioso, de Jorge Luis Borges (1899- 1986). Funes (o nome lembra funny, engraçado, Borges era fluente em inglês) não conseguia esquecer nada. E isso não fazia dele um homem feliz; ao contrário: a carga da memória esmagava-o. Contudo, pode ser uma fonte de gratificações. Como diz o provérbio, recordar é viver. A memória é um componente da História, que, afinal é a soma das lembranças individuais. A historiografia atual recorre muito à chamada história oral, narrativas pessoais que podem remeter a contextos passados mais amplos. Nas mãos de grandes escritores as recordações, mesmo penosas (ou principalmente penosas), transformam-se em matérias-primas para grandes obras. Basta lembrar dois livros, escritos por dois famosos ex-prisioneiros politicos: Recordações da casa dos mortos, de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), e Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos ( 1892-1953). O poeta mineiro Pedro Nava (1903-1984) usou suas recordações, relacionadas principalmente à medicina, profissão que exerceu durante muito tempo, para criar uma grande e importante obra memorialística, em vários volumes, dos quais Baú de ossos é um exemplo. Como tudo na vida, a memória pode ser fonte de aflição — ou ponto de partida para um excitante processo de autodescoberta e de criação pessoal.

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