Os perigos da mente distraída


Alguns acham que médicos e pais se apressam ao obrigar crianças naturalmente cheias de energia a se adaptarem aos padrões adultos.

Jornal Folha de São Paulo - por Peter Catapano

Quando estamos em situações em que temos que atuar sob pres­são - digamos que Neymar se aproxima de você para marcar o gol do desempate ou você tem apenas 24 horas para salvar o siste­ma financeiro global-, nossas dire­tivas inter­nas, quando conseguimos nos manter calmos o suficiente para pensar nelas, normalmente se resumem a variações sobre um único te­ma: "Concentre-se!".

A capacidade de focar é impor­tante não apenas em crises. As distrações diárias chegam não aos poucos, mas às centenas, e a pessoa que é capaz de desligar­-se delas e concentrar-se sobre a tarefa que tem pela frente goza de vantagem evidente. Mas não é fácil fazer isso.

"É claro que gostaríamos de pensar que nossa atenção é in­finita", escreveu no "New York Times" Maria Konnikova, autora de "Mastermind: How to Think Like Sherlock Holmes" [Genial - como pensar como Sherlock Holmes]. "Realizar tarefasmúl­tiplas simultaneamente é um mito persistente. O que fazemos, na realidade, é desviar nossa aten­ção de uma tarefa para outra. Duas coisas negativas decorrem disso. Não dedicamos tanta aten­ção a uma só coisa e sacrificamos a qualidade de nossa atenção."

Konnikova propõe uma so­lução para esse problema: ela cita pesquisas indicando que a prática relativamente simples da meditação consciente pode melhorar nossa capacidade de concentração. "Esses esforços fazem sentido: o que está na ba­se do estado de consciência é a capacidade de prestar atenção. É exatamente isso o que Holmes faz quando junta as pontas dos dedos ou exala uma nuvem fina de fumaça: concentra sua aten­ção sobre um único elemento. De alguma maneira, não obstante a aparente pausa em sua ativi­dade, ele emerge sempre muito à frente de seus colegas que des­pendem muita energia."

Derrotar a concorrência com uma atenção concentrada pode ser desejável num mundo compe­titivo adulto, mas a busca do ideal de Holmes pode ser levada longe demais e de maneira precoce. Um estudo dos Centros de Controle de Doenças constatou que, nos Estados Unidos, um em cada cinco meninos em idade es­colar e uma em cada dez crianças em idade escolar já receberam o diagnóstico de transtorno de deficit de atenção com hiperativi­dade (TDAH) - um aumento de mais de 40% em relação à década passada.

Esses números levam alguns a pensar que pais e médicos estão se apressando demais a forçar crianças naturalmente cheias de energia a se adaptar aos padrões do comportamento adulto. Como estamos falando dos EUA do século 21, há um compri­mido para resolver o problema. "Cerca de dois terços das pesso­as diagnosticadas hoje recebem prescrições de estimulantes como Ritalina ou Adderall, que podem melhorar drasticamente a vida de quem tem TDAH, mas também gerar dependência, ansiedade e psicose ocasional", relatou o "NewYork Times". Os casos de abuso dessas drogas vêm aumentando, não apenas como medicamento, mas como "auxílio para o estudo" para es­tudantes de todas as idades.

O autor Ted Gup escreveu no "New York Times" sobre seu filho David, diagnosticado com TDAH aos cinco anos de idade. Quando David morreu de um misto de álcool e drogas aos 21 anos, em 2011, Gup se viu como parcialmente responsável. "Sem saber, entrei em conluio com um sistema que desvaloriza a terapia e se apressa a medicar. Com isso, inadvertidamente transmiti a mensagem de que a automedicação é aceitável", escreveu. Essa mensagem, disse Gup, tornou-se parte de "uma era em que os meios de comunicação funcionam como um grande em­pório de drogas supostamente capazes de resolver tudo, desde problemas de sono até sexo. Receio que a própria condição humana esteja se transformando em condição médica".

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