Perda de tempo é culpa da internet


Desperdício de tempo na rede é a principal causa de atrasos em tarefas importantes, mostra pesquisa.

Jornal Folha de São Paulo - por Juliana Vines

Aquela olhadinha despre­tensiosa no Facebook pode consumir horas de trabalho. Segundo uma pesquisa divul­gada recentemente, 62% das pessoas admitem que nave­gar na internet faz com que elas procrastinem, adiem ta­refas profissionais e pessoais.

O estudo, coordenado pe­lo consultor em gestão do tempo Christian Barbosa, foi feito com cerca de 4.000 pes­soas e publicado no livro "Equilíbrio e Resultado - Por que as Pessoas Não Fazem o que Deveriam Fazer?" (Sex­tante, 144 págs., R$ 24,90),
que acaba de ser lançado.

Na pesquisa, 71% dos en­trevistados disseram deixar tudo para a última hora. "Eles reclamam de falta de tempo, mas perdem tempo em redes sociais", diz Barbosa. A internet não é a única culpada, mas é como se ela juntasse a fome com a vonta­de de comer: a preguiça com a oferta de algo divertido que exige pouco esforço. "Pro­crastinação sempre existiu, mas antigamente não tinha Skype e Facebook. Hoje a lu­ta é mais severa, há mais coi­sas para nos sabotar", afirma Barbosa.

Para a psicóloga Luciana Ruffo, do Núcleo de Pesqui­sas da Psicologia em Informá­tica da PUC-SP, a internet é um "facilitador do deixar pa­ra depois"" e, ao mesmo tem­po, uma desculpa para o adiamento. "A culpa é da fal­ta de vontade. O que eu que­ro mesmo, eu faço. Mas, na falta de vontade, como não priorizar o prazer?"

Mais de 86% dos entrevis­tados da pesquisa disseram que procrastinam as tarefas chatas; 51%, as longas.

• As mais adiadas

Em primeiro lugar no ranking de atividades mais proteladas, nenhuma surpre­sa: exercício fisico. Em segun­do, leituras e, em terceiro, cuidados com a saúde.

"Quando as pessoas preci­sam adiar algo, elas adiam coisas pessoais. Muitas vezes são coisas vitais que a longo prazo podem até diminuir a expectativa de vida, como exercício fisico", diz Barbosa.

Nessa hora, a falta de co­brança externa conta bastan­te. Afinal, ninguém vai ser de­mitido por faltar à academia ou deixar de ler.

Outro problema é a aceita­ção das "desculpas emocio­nais", de acordo com a psicóIoga Rachel Kerbauy, profes­sora aposentada da USP e uma das pioneiras no estudo do tema no Brasil.

"Sempre há urna desculpa pronta: está cansado, tem muita coisa para fazer ... Fal­ta planejamento e falta a pes­soa aprender que, às vezes, para ganhar no futuro tem que perder a curto prazo."

As atividades campeãs de procrastinação têm em co­mum os resultados demora­dos. "O reforço não e imedia­to. O Facebook me dá um re­tomo muito rápido. O prazer é instantâneo", afirma Rita Karina Sampaio, psicóloga e pesquisadora da Unicamp.

• Despertardor

Como não cair na tentação de fuçar o site de fofocas no meio do expediente?

Para Ruffo, se o problema não for mais sério, como no caso de dependência de in­ternet (quando as horas à frente do computador são tantas que prejudicam a vida social), um alarme já ajuda.

"A pessoa pode estabele­cer que vai ficar 20 minutos na rede e colocar um desper­tador para se lembrar de sair na hora certa." Outra ideia é estabelecer metas com prê­mio: uma tarefa feita é igual a uma olhadinha no Twitter.

A psicóloga Rita Sampaio sugere que as metas mais di­ficeis sejam compartilhadas com um amigo ou parente para que a cobrança aumen­te. E, para os planos mais lon­gos, é interessante definir submetas atingíveis, em pra­zos menores. "Todo procras­tinador tende a ser "oito ou oi­tenta" e ter uma visão distorcida do tempo."

• Estudo foi feito on-line

O levantamento coordena­do pelo consultor Christian Barbosa foi realizado pela internet com 4.102 pessoas, de outubro de 2011 a abril de 2012. Para formular per­guntas e respostas, de alter­nativas fechadas, foi feita uma pré-pesquisa com 280 pessoas, que responderam a um questionário aberto por telefone e pessoalmente. 

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