Porque Mudar é tão Difícil?


Revista Psique - Ciência & Vida por Leonardo Mascaro.

Qualquer pessoa que já tenha feito terapia sabe o quão longo e complicado pode ser o processo de mudança interior, especialmente quando se trata da dinâmica emocional interna. Mas, por quê?

A verdade é que, como bem identificou Freud, temos de buscar na primeira década de nossas vidas a resposta para nosso entendimento da relação existencial que estabelecemos com os outros, os fatos de nosso cotidiano e, principalmente, com nós mesmos.

A razão para isso, claro, está na maneira como nosso cérebro se desenvolve. Especialmente durante a infância, passamos pelo que se convencionou chamar, nas neurociências, de “períodos críticos de plasticidade” cerebral. Isto significa que, como a argila molhada, as redes neurais, por estarem em pleno processo de formação, são extremamente plásticas, respondendo fortemente às influências do meio externo, ou seja, às experiências às quais somos expostos, seja no que diz respeito à aprendizagem de um instrumento musical, seja na aquisição de um trauma por maus-tratos nesta fase de nossas vidas.

Não importa. Seja lá o que for, somos fortemente influenciados em nossa infância por tudo aquilo a que estivemos expostos neste período. E isto constrói o núcleo de nossa personalidade, especialmente de nossa estrutura emocional, o que determinará não só a maneira como estabelecemos vínculos na vida, mas a própria formação de nosso caráter, valores e crenças.

Nesta fase em que nosso cérebro emocional, o sistema límbico é senhor de nossa experiência existencial. Se vestimos a roupa do Batman, somos o Batman!! O reino da fantasia é o terreno de nossa infância. Porém, uma vez que o neocórtex esteja formado, assumindo hierarquicamente sua posição de comando no funcionamento cerebral, iniciamos nossa trajetória rumo à fase adulta.

E aí começam os problemas. O fato é que, se nosso cérebro emocional, o sistema límbico, funciona essencialmente em Theta, na faixa de 4 a 7 ciclos por segundo (ou 4 a 7 pacotes de informação por segundo), o neocórtex, que agora assume o comando, é mais rápido, processando de 15 a 18 pacotes de informação por segundo. Isto significa que há, aí, um descompasso. É como se estivéssemos usando dois rádios tipo walkie-talkie, cada um sintonizando uma faixa distinta do dial.

O resultado: perdemos contato com nossa criança interior. Mais propriamente, o contato com nossas emoções torna-se vago e distante. O adulto e seu mundo racional se sobrepoem à criança portadora de emoções. Neurologicamente, fecham-se as portas de mudança das redes límbicas de processamento emocional e, com isso, há o “congelamento” desta nossa criança interior que, do ponto de vista emocional, para no tempo. Há até casos de pessoas que sequer conseguem lembrar de sua infância. Isto por que as mesmas estruturas e circuitos límbicos que processam emoções, no cérebro, também participam ativamente do processamento da memória.

Este quadro nos mostra o quão difícil é a comunicação entre o córtex racional e o emocional. Na verdade, sua distância está marcada por milênios, dentro de um processo evolutivo que construiu nosso cérebro como uma casa em que cada novo cômodo foi sendo sobreposto ao anterior. E esta distância evolutiva também explica a distância de comunicação entre o neocórtex e o sistema límbico.

Esta distância se resume, no cérebro, a duas frequências: Alpha e Theta. Como já mencionei em coluna anterior, Alpha faz o papel de frequência-ponte entre Beta (nossa mente racional) e Theta, sede de nossa memória e de nosso subconsciente emocional.

• Arquivos emocionais

Para mudar o que está lá, no mundo da criança interior, portanto, precisamos produzir, no terreno de nossa mente racional, isto é, em nosso neocórtex, maiores amplitudes de Alpha e Theta, não momentaneamente, mas de forma mais estável e duradoura, para que a comunicaçáo entre o adulto que somos hoje e a criança que fomos um dia possa acontecer. Isto fornecerá as condições efetivas para a atualização de nossos arquivos emocionais, promovendo as mudanças que sentimos, hoje, necessárias.

O que precisamos, então, é treinar a atividade neurológica de nosso córtex cerebral (o neocórtex) a produzir a configuração elétrica específica que citei em coluna anterior, em que há a redução efetiva de Beta, para que nossa mente racional — o adulto — não interfira na comunicação com a criança, em Theta, que passa a tornar-se acessível pelo correspondente aumento da produção do par AlphaTheta. E este é o padrão neurológico da meditação!

Daí a dificuldade para se chegar a mudanças efetivas em terapia. Mais do que falar, precisamos silenciar e treinar nossas mentes a modificar a característica de sua atividade para que os canais de comunicaçáo com nosso subconsciente (o inconsciente freudiano) possam se abrir e, deste ponto em diante, com a mente consciente e a subconsciente em fase, isto é, sincronizadas em Theta, podermos realizar a atualização de nossos registros emocionais e, com isso, trabalhar mudança de forma perene.

Como você já deve estar pensando, isto não é tarefa das mais simples. Mas o fato é que é plenamente passível de ser realizada com treinaniento orientado, desde que auxiliado pela leitura em tempo real da atividade c cerebral em curso, para que se possa aprender a reconhecer o estado interno correspondente à maior produção de cada frequência e, com isso, treinar sua produção. Nesse processo é bem capaz que você, literalmente, se defronte com a criança que foi um dia, ali, viva, dentro de você, se comunicando diretamente com você, falando de suas dificuldades e de seus anseios. E esse encontro, sim, permitirá que mudanças que você, provavelmente, sequer imaginava que fossem possíveis, aconteçam.

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