Pressão Alta


Sucesso nos EUA, documentário faz crítica à cultura de alta performance que impera nas escolas de classe média alta.

Jornal Folha de São Paulo - por Hélio Schwartsman

Com um orçamento em torno de US$ 500 mil (R$ 835 mil), o filme já arrecadou mais de US$ 6 milhões (R$ 10 milhões) nos EUA e conquis­tou um lugar entre os 20 documentários de maior sucesso da história. Fez tudo isso sendo exibido em poucos cinemas. A maior parte da audiência estava em sessões comunitárias em escolas e templos. Ainda mais notável, de­pois que as luzes se acen­diam, as pessoas não iam embora, mas ficavam para debater o que tinham visto.

"Race to Nowhere" (corri­da para lugar nenhum), da estreante Vicki Abeles, advo­gada e "mãe preocupada" convertida em cineasta, é um filme sobre educação. Mais especificamente, um filme com fortes críticas à cultura da alta performance que im­pera nos subúrbios de classe média alta dos EUA. Ao longo das últimas déca­das a população endinheira­da que almeja colocar seus fi­lhos numa universidade de elite cresceu mais do que a oferta de vagas nessas instituições. O resultado é uma competição cada vez mais acirrada, na qual até concei­tos "A" tirados na 3ª série contam pontos e atividades extracurriculares como chi­nês e futebol podem fazer a diferença entre Harvard e uma faculdade "menor".

 Muitos não aguentam tan­ta pressão. É esse lado menos brilhante da cultura da alta performance que o filme pro­cura mostrar. E o faz interpo­lando comentários de especialistas a depoimentos de alunos Que desenvolveram doenças-psicossomáticas, abandonaram o curso, en­volveram-se com drogas, aprenderam a colar nas provas. Há até a história de uma garota de 13 anos que se sui­cidou após fracassar num teste de matemática.

De um modo geral, tudo está bem encadeado e o documentário levanta "várias questões importantes, algu­mas das quais valem não apenas para os EUA como também para o Brasil. Será que não estamos im­pondo uma agenda muito apertada para nossos filhos? A questão do excesso de compromissos infantis, pelo menos nos estratos mais abastados, é universal. A rotina típica inclui escola, curso de idiomas, atividade esportiva. Para os mais ve­lhôs, um pouco de volunta­riado. No caso das grandes cidades brasileiras, ainda é preciso acrescentar o tempo perdido no trânsito.  Tudo isso é importante, mas o mesmo pode ser dito de ter algum tempo livre, até para que o cérebro possa pro­cessar o "input" que recebe.

• Provas

Outro ponto relevante é o que filme chama de excesso provas. Não há dúvida de que é fundamental conseguir medidas tão objetivas quan­to possível do desempenho de crianças, professores e es­colas. Sem distinguir o que funciona do que não, é impossível melhorar. Quando a avaliação se tor­na o ponto central da vida es­colar, porém, surgem efeitos colaterais difíceis de lidar, como a cultura da "cola" e o estresse precoce experimen­tado por certas crianças.

Um capítulo à parte, mas que não vale tanto para o Brasil é o da lição de casa. Nos EUA, além de uma jorna­da escolar de sete horas, não raro seguida por três ou qua­tro horas de atividades extra­curriculares, as escolas cos­tumam exigir grande volume de leituras e tarefas para ca­sa. Muitas vezes, um jovem no ensino médio precisa dedicar a elas mais três ou qua­tro horas diárias, que podem avançar madrugada adentro. A carga parece tanto mais exagerada quando se consi­dera que os testes comparativos internacionais mostram que não há uma correlação importante entre quantidade de lição de casa e desempe­nho acadêmico. Por essas e outras já há, nos EUA, um grupo de interesse voltado a acabar com a lição. Sua presi­dente é um dos personagens do documentário.

• Viés de classe 

Um ponto que o filme até menciona, mas ao qual tal­vez não dê a devida ênfase, é que existem recortes de clas­se social. A maioria dos nor­te-americanos não vive em subúrbios de classe média al­ta e, para eles, a situação é muito diferente. Para come­çar, esse grande contingente populacional nem cogita en­trar nas universidades de eli­te. Suas ambições estão limi­tadas a instituições públicas e "community colleges". O desafio para essas pes­soas não é suportar a pres­são, mas conseguir concluir o ensino médio e prosseguir mais com os estudos. É possí­vel que, para essa popula­ção, os testes e lições de casa tenham um impacto mais po­sitivo do que negativo.

Tal ponderação não tira o mérito do documentário de problematizar a cultura da alta performance. Embora li­mitada a uma classe social específica, ela gera dificulda­des que precisam ser questio­nadas para dar lugar a apri­moramentos. E isso vale para qualquer lugar do mundo. Os produtores de "Race to Nowhere" não têm por ora planos de trazer o filme ao Brasil. O DVD, entretanto, já pode ser encomendado no si­te do documentário: www.racetonowhere.com.

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