Qual é o princípio do progresso profissional?


Há uma ilusão entre executivos de que jogar duro e pagar muito seria a receita de sucesso.

Jornal Folha de São Paulo - Gilberto Dimenstein

Todos os dias, 238 profissionais de sete empresas cofidenciavam num diário como se sentiam no tra­balho. No anonimato, tinham liber­dade total de escrever o que bem en­tendessem, relatando raivas, frus­trações e alegrias. Nem eles nem os pesquisadores, todos psicólogos, sabiam que, da­quelas confissões, surgia involunta­riamente um indicador tanto para saber até que ponto uma empresa estava condenada a não criar um ambiente propício para a inovação, correndo o risco de ir mal nos negó­cios, como para, ao contrário, saber se a empresa estava sendo capaz de implementar descobertas impor­tantes, que atraíssem lucros.

Os diários, recheados com os 64 mil comentários, transformaram-se num estudo intitulado "O Princípio do Progresso", recém-lançado pela editora da escola de negócios de Harvard e indicado como leitura obrigatória por publicações espe­cializadas em recursos humanos. Da leitura dos diários, constatou-se que o ânimo do empregado para se engajar em inovações depende, em primeiro lugar, de uma sensação de progresso individual obtida cotidianamente. "O progresso está nas pequenas conquistas, quando as pessoas se sentem aprendendo, descobrindo soluções e superando obstáculos", diz Teresa Amabile, uma das autoras do estudo, psicóloga pós­-graduada em Stanford e professora da escola de negódos de Harvard, onde desenvolve pesquisas sobre criatividade empresarial. Isso significa, em poucas pala­vras, que a empresa deve ter um am­biente aberto à experimentação e à aprendizagem. "O valor da apren­dizagem aparece na frente de reconhecimenio ou dinheiro para man­ter o entusiasmo", acrescenta.

O foco da investigação foram equipes que trabalhavam em projetos inovadores, gente de quem se exige que encontre soluções, e não apenas que repita o que já se faz, fugindo do que especialistas em recursos humanos batizaram de "aposentadoria mental". Apenas uma empresa, na qual os empregados revelaram, em seus di­ários, ter encontrado constante prazer na experimentação, conseguiu desenvolver um produto inovador. Naquela que teve as piores con­siderações dos funcionários, o re­sultado foi um desastre. "Não ape­nas não gerou nada de novo como também, logo depois de nossa pes­quisa, foi vendida para uma firma menor", afirma a professora. Romper barreiras da inovação exige muito engajamento e ânimo. Um dos exemplos, segundo Teresa, é o Google. "Eles determinaram que seus funcionários teriam 20% de seu tempo para pesquisar o quises­sem. Assim nasceu, entre outras coi­sas, o gmail."

Com os questionários já tabulados, Teresa Amabile resolveu ampliar sua investigação. Mandou então um questionário a 699 executivos para saber quais eram os fatores que mais influenciavam o ânimo do empregados. "O fator "progresso" não apareceu em primeiro lugar" , constata. Significa quase só 5%. Há uma ilusão entre executivos de que jogar duro e pagar muito seria a receita de sucesso. "O que mo­tiva, pelo menos na geração de ino­vação, é o prazer da conquista, não a cobrança." Está aí, certamente, um dos mo­tivos por que os jovens preferem abrir suas empresas - as chamadas start-ups - e por que está cada vez mais difícil para grandes grupos atrair e reter jovens talentos.

O que esse estudo descobriu é o fato de que as empresas inovadoras têm de assegurar um espaço institucional de desordem para gerar progresso. Apesar de a investigação ter sido focada em equipes que tinham pro­jetos especficos, Teresa acha que o "principio do progresso" vai muito além: não se sobrevive, num am­biente competitivo, sem renovação constante. Uma pesquisa realizada pelo Gallup revelou recentemente um re­corde de desânimo entre os traba­lhadores americanos, o que foi tra­duzido por economistas em núme­ros: a falta de engajamento tiraria cerca de R$ 500 bilhões da econo­mia, em decorrência da perda de produtividade.

PS- Coloquei um trecho do livro "O Principio do Progresso" na internet (www.catracalivre.com.br) para quem quiser obter mais dados. O que aprecio nesse estudo é a ideia de que a melhor empresa é uma escola de aprendizagem permanente, que obriga a reciclar os papéis. Quem manda terá de ser render. 

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