Quanto tempo você quer viver?


Jornal Folha de São Paulo - por David Ewing Duncan

Desde 1900, a expectativa de vida dos americanos saltou de 47 anos para quase 80 anos. Esse aumento decorre princi­palmente de melhoras na higiene e na nutrição, mas também de novas descobertas e interven­ções: de antibióticos e pontes de safena a remédios contra o câncer que identificam e neu­tralizam o impacto de mutações genéticas específicas.

Agora, cientistas que estudam os meandros do DNA e de ou­tras biodinâmicas moleculares podem estar prestes a oferecer mais longevidade, ao desenvol­verem novas drogas e tratamen­tos para problemas cardíacos, diabetes e outras doenças. "A idade é o principal fator de risco para a maioria das doen­ças", diz Felipe Sierra, diretor da Divisão de Biologia do Envelhe­cimento do Instituto Nacional do Envelhecimento. "Os Institutos Nacionais de Saúde financiam pesquisas sobre a compreensão das doenças do envelhecimento, não do prolongamento da vida, embora esse possa ser um efeito colateral,"

Mesmo sem uma nova "solu­ção" tecnológica para o enve­lhecimento, a ONU estima que a expectativa de vida ao longo do próximo século se aproximará dos 100 anos para as mulheres no mundo desenvolvido e superará os 90 anos para as mulheres nos países em desenvolvimento (os homens ficam três ou quatro anos atrás).

Nos últimos três anos, fiz uma pergunta a quase 30 mil pessoas em palestras sobre tendências futuras das biociências: quanto vocês querem viver? Apresentei quatro respostas
possíveis: 80 anos, atual vida média no mundo desenvolvido; 120 anos, aproximadamente o máximo que alguém já viveu; 150 anos, o que exigiria avanços da tecnologia e para sempre, rejeitando a ideia de que a vida deve ter um limite. Cerca de 60% das pessoas op­tavam por viver até os 80 anos; 30% escolhiam 120; e quase 10% respondiam 150 anos. Menos de 1% abraçava a ideia de que as pessoas possam evitar comple­tamente a morte.

Nas minhas palestras, eu des­crevia as pesquisas capazes de influenciar a duração da vida. Os laboratórios estão realizan­do testes clínicos sobre novas fórmulas que prorroguem vidas. "Muitas tentativas sérias estão sendo feitas para se chegar a uma pílula para o envelhecimen­to", disse Sierra, que no entanto suspeita que não haverá um remédio único contra a idade, se é que alguma das fórmulas irá funcionar. "Será uma combina­ção de coisas."

Há mais de uma década, os cientistas também testam o uso de células-tronco para substituir e reparar tecidos de animais, e pacientes humanos já recebe­ram bexigas e uretras gerados dessa forma. Mas um pioneiro das células-tronco, James Thomson, da Universidade de Wis­consin, acredita que as soluções envolvendo células-tronco vão demorar muito para chegar aos órgãos mais complexos.

A biônica incremento ou substituição de funções biológi­cas por máquinas também pode ter um impacto. Marca-pas­sos cardíacos já prolongaram as vidas de milhões. Os pesquisado­res também estão desenvolven­do exoesqueletos para proteger articulações, e dispositivos que exploram a atividade cerebral de pacientes paralisados, permitindo-os operar computadores com a mente.

Curiosamente, após saber dessas possibilidades, poucos mudaram seu voto, alegando que não gostariam de se tornar ve­lhos e enfermos por mais tempo do que o necessário.

Outros se preocuparam com o impacto sobre o planeta. Alguns temiam que os milhões de cen­tenários na ativa deixem nossos netos e bisnetos sem empregos. Já os adeptos da longevidade argumentavam que prolongar vi­das saudáveis adiaria o sofrimen­to. Isso permitiria que as pessoas realizassem mais e tentassem coisas novas. Também significa­ria que gênios como Steve Jobs ou Albert Einstein ainda poderiam estar vivos. Einstein, se fosse vi­vo, estaria com 133 anos.

Isso supondo que ele quisesse viver tanto. Quando agonizava por causa de um aneurisma da aorta abdominal, em 1955, Eins­tein recusou uma cirurgia. "É de mau gosto prolongar a vida artificialmente", afirmou. "Já fiz minha parte, é hora de ir. Farei isso com elegância."

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