Que hora é hora de dormir?


Engana-se quem acha que pode mudar o horário de sono o tempo todo impunemente.

Jornal Folha de São Paulo - por Suzana Herculano-Houzel

Você já deve ter notado que costuma sentir sono mais ou menos no mesmo horário todas as noites. Uma questão de hábito, talvez?

Em parte, sim: adormecer tem um componente de con­dicionamento, uma associa­ção entre estímulos específi­cos e sempre um mesmo re­sultado, o sono. Por isso, as recomendações de pediatras e neurologistas quanto a bons hábitos de so­no fazem sentido: ter uma ro­tina (aquele banho mais lon­go à noite, seguido pela roupa especial de dormir e pelo apa­gar das luzes), dormir bem alimentado (para não acor­dar com fome no meio da noi­te), só deitar na cama na hora de dormir, não ficar brincan­do de joguinhos eletrônicos excitantes na cama.

Sexo, claro, ""pode"": embo­ra seja estimulante, a tendên­cia para homens e mulheres é relaxar fisicae mentalmente a seguir, e adormecer logo. Engana-se, contudo, quem
acredita que pode mudar im­punemente o horário de sono o tempo todo. Trocar o dia pe­la noite constantemente é péssimo para o cérebro. Não só se perdem várias horas de sono no processo, que cobram a conta depois (com aquela sensação de cansaço e falta de atenção), como os ritmos internos do corpo, temperatura, metabolismo e produção de hormônios ficam desencontrados com o sono.

Para crianças, sobretudo, vale o que as avós diziam: é durante o sono que se cresce. O pico de produção de hor­mônio do crescimento acon­tece no início da noite; se não
se está dormindo nessa hora, perde-se a dose do dia. Além disso, há um horário interno mais propício ao sono de cada um. Assim como va­riações genéticas determinam se você é louro ou more­no, claro ou escuro, outras variações conhecidas podem fazer com que você natural­mente tenda a adormecer ce­do e acordar de madrugada (esses são os matutinos), ou, ao contrário, a adormecer es­pecialmente tarde e só acor­dar lá pelas dez da manhã (os vespertinos). Para essas pessoas, acordar fora do horário "normal" (no sentido estatístico) é qua­se doloroso. A diferença está nos genes que regulam a hora do dia em que nosso relógio autônomo interno troca o modo "dormir" pelo modo "acordar". Funciona até na mosquinha da banana: bas­ta uma variação genética pa­ra transformá-Ias em madru­gadeiras ou notívagas.

Se você é um desses casos fora da norma, portanto, res­peite-se. Mais difícil, contu­do, é conseguir o respeito dos outros ...

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