Quem não se mexe…


Atenção, sedentários: exercícios físicos não fazem bem só ao coração, mas a memória também.

Revista ÉPOCA Negócios.

Pode observar: quando os autores de filmes e seriados de TV querem retratar um personagem impaciente, superficial ou dispersivo, o colocam em cena correndo numa esteira de academia, sem dar a mínima atenção ao co-protagonista, que está fora da esteira. Pois bem, os roteiristas de Hollywood se equivocam. Uma pesquisa da doutora Sabine Schaefer, do Instituto Max Planck, de Leipzig, na Alemanha, mostra que a corrida e a marcha, mesmo que em esteira, ajudam a melhorar a memória, a atenção e o raciocínio.

O sedentarismo, por sua vez, não é só um perigo à musculatura, inclusive cardíaca. É também uma ameaça ao cérebro e à memória. Quem pratica exercícios regularmente é mais focado do que o sedentário. O estudo desmente algumas lendas sobre exercício e memória. “Os psicólogos costumam afirmar que nossa faixa de atenção é limitada. Quanto mais ela é gasta numa atividade, menos sobra para outra. Isso é uma inverdade”, diz Sabine.

Numa analogia, a atenção e a memória não são como um copo, que depois de cheio transborda. Antes, são como que recipientes ligados a um sifão. Os exercícios físicos, como comprovou a psicóloga, bombeiam “água” (capacidade de memória) para os “recipientes” (os centros de memória no cérebro).

“Nós temos vários "recipientes’ dentro do cérebro”, completa Sabine. O estudo é um elogio à multitarefa: executivos costumam dizer que as melhores ideias lhes ocorrem durante a corrida matinal. Isso não é mais empirismo: o método científico os embasa.

A equipe de Sabine fez o teste com 32 crianças de 9 anos e 32 adultos (de 25 anos, em média). Os entrevistados, que tiveram de responder a vários testes de memória, foram divididos em três grupos. Ao primeiro, coube correr na esteira em velocidade livre. O segundo corria em velocidade predeterminada pelos pesquisadores. O terceiro devia ficar parado. Este último grupo teve o pior desempenho nos testes.

Quem se saiu melhor foi o primeiro grupo, o da corrida livre. “As diferenças cognitivas foram bem acentuadas entre os grupos”, nota a psicóloga. O esforço físico desperta a ativação cerebral, que foi canalizada para a atividade cognitiva.

Por que, no entanto, o grupo de velocidade fixa não teve desempenho equiparável ao da velocidade livre? “A velocidade escolhida por nós foi bem inferior à da média dos participantes”, afirma a pesquisadora Sabine. A intensidade do exercício na esteira contribuiu para o aumento de capacidade de memória.

A descoberta da equipe de Sabine também pode ter uma outra — e muito boa — finalidade prática, no que diz respeito às crianças: “Existe uma relação entre sedentarismo infantil e hiperatividade [causa de dispersão]. Os exercícios podem ajudar o público infantil”.

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus