Questionando a tecnologia como professor


Jornal Folha de São Paulo - por Kevin Delaney

Durante décadas, uma visão tecno-utópica da sala de aula incendiou os sonhos dos educa­dores. Nesse cenário, o professor deixa de ser "um sábio no palco para ser um guia ao seu lado". Pois em uma classe de alunos autodirigidos e ligados à web o papel do professor é simplesmente oferecer uma orientação sutil.

Em países tão diferentes quanto China, índia e Colômbia, os educadores alimentam essa am­bição com enormes investimen­tos em informática. Em outros países, como os Estados Unidos, esses impulso se choca com cor­tes orçamentários e demissões de professores.

Mas, como muitas visões utópi­cas, esta enfrenta uma reação. "Ensinar é uma experiência humana", disse ao Times Paul Thomas, professor associado de educação na Universidade Furman, na Carolina do Sul. "A tec­nologia é uma distração quando precisamos de alfabetização, raciocínio matemático e pen­samento crítico."

Até Steve Jobs, que comandou a revolução do computador na sala de aula como um dos fun­daderes da Apple, tinha suas dúvidas, Seu biógrafo Walter Isaacson descreveu uma con­versa no início deste ano entre Jobs e Bill Gates, o cofundador da Microsoft. Os dois "concordaram que até agora os computadores, surpreendentemente, haviam tido pouco impacto nas escolas".

E Jobs não era o único guru tecnológico do Vale do Silício a questionar os computadores no ensino, A escola Waldorf da Península, localizada no centro do Vale do Silício, em Los Gatos, ensina os filhos de muitos fun­cionários de gigantes tecnolôgi­cas como Google, Apple, Yahoo e Hewlett-Packard, relatou o Times. Mas não há computadores na escola, e seu uso em casa tam­bém é desencorajado.

Alan Eagle, que trabalha na Google, não teme que seus filhos fiquem atrasados. "Na Google e em todos esses lugares fazemos tecnologia tão fácil de usar quan­to possível", ele disse ao Times. "Não há motivo para que as cri­anças não consigam aprendê-Ia quando ficarem mais velhas." Mas não diga isso na Coreia do Sul, que está gastando US$ 2 bilhões para modernizar ainda mais seu já futurista modelo de educação digital até 2015. E quem pode discutir com o sucesso? Seus alunos se classificam nos níveis mais altos em matemátíca e ciência em todo o mundo. Mas existe um preço para essas con­quistas. As crianças estão exaus­tas e estressadas com as sessões de estudos até tarde da noite.

Também há um crescente temor entre os educadores core­anos de que sua ênfase para o aprendizado por repetição, neste caso reforçado por computado­res, esteja produzindo estudantes que não são criativos.

Outro país superinformatiza­do, a Finlândia, também se clas­sifica no topo dos testes globais. Mas as escolas têm muito pouca tecnologia e as crianças de lá não são tão pressionadas.

Bryan Luizzi, diretor do colégio Brookfield em Connecticut, visi­tou a Finlândia este ano. "Foi um pouco desanimador", ele disse ao site Scholastic.com. "Eu não vi um só estudante com um laptop".

É claro que inúmeros fatores contribuem para o sucesso de um país na educação. A Finlân­dia quase não tem pobreza e os professores são bem pagos e altamente respeitados.

Como escreveu no Times Rudy Crew, um ex-diretor do depar­tamento de educação da Cidade de Nova York, "certamente há oportunidades que podem ser captadas por meio da tecnologia, mas no centro da educação está a relação entre professor e aluno". 

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