Raciocínio evoluiu por causa de discussões


Estudo contraria ideia de que a razão se desenvolveu para cahar a verdade.Teoria de cientistas franceses explicaria porque raciocínio das pessoas é cheio de inconsistências e vieses.

Jornal Folha de São Paulo - por Hélio Schwartzman

Num artigo impactante, que vira do avesso alguns dos pressupostos da filosofia e da psicologia evolucionista, os pesquisadores franceses Hu­go Mercier (Universidade da Pensilvânia) e Dan Sperber (Instituto Jean Nicod) susten­tam que a razão humana evo­luiu, não para aumentar nos­so conhecimento, mas para nos fazer triunfar em debates. Desde alguns gregos, mas espeeialmentecom René Des­cartes (1596-1650), consoli­dou-se a ideia de que a razão é um instrumento pessoal pa­ra nos aproximar da verdade e tomar as melhores decisões possíveis. "Penso, logo exis­to" é a divisa que celebrizou o pensador francês.

Se esse esquema é exato, como explicar que o pensa­mento humano erre tanto? Como espécie, fracassamos nos mais elementares testes de lógica, não conseguimos compreender noções básicas de estatística e nascemos com uma série de vieses cogniti­vos que conspiram contra abordagens racionais. A situação não melhora quando quando abandona­mos o reino das abstrações para entrar no terreno do in­teresse pessoal. Vários estu­dos têm mostrado que a maio­ria das pessoas comete ver­dadeiros desatinos lógico-fi­nanceiros ao administrar seus fundos de pensão.

Mercier e Sperber afirmam que é possível explicar esse e outros paradoxos se deixar­mos de lado a noção clássica para adotar o que chamam de teoria argumentativa. Apre­sentam uma convincente massa de estudos e evidên­cias em favor de sua tese. A ideia básica é que a ca­pacidade de raciocinar é um fenômeno social e não indi­vidual, cujo objetivo é persu­adir nossos semelhantes e fa­zer com que sejamos cautelo­sos auando outros tentam nos covencer de algo.

• Soluções

Teoria, dizem os autores, não só faz sentido evolutivo como ainda resolve uma sé­rie de problemas que há mui­to desafiavam a psicologia. O mais importante deles é o chamado viés de confirmação, que pode ser definido co­mo "buscar ou interpretar evidências de maneira par­cial, para acomodar crenças, expectativas ou teorias pree­xistentes". O fenômeno está na base daquela mania irri­tante de políticos de só res­ponder o que lhes interessa.

O viés de confirmação é ainda uma das razões de persístência no erro, mesmo quando ele nos prejudica. Temos dificuldade para processar informações que contrariam nossas convic­ções. Em suas versões extre­mas, ele produz pseudociên­cias, fé em religiões e siste­mas políticos e também teo­rias da conspiração. Sob o modelo clássico, o vi­és de confirmação é uma fa­lha de raciocínio mais ou me­nos inexplicável. Mas, se a razão foi selecio­nada para nos fazer vencer em debates, então faz senti­do que eu busque apenas pro­vas em favor da minha tese, e não contra ela. Adotada a lógica da pro­dução de argumentos, o que era erro se toma um dos pon­tos fortes da teoria.

• Fenômeno social

O modelo tem, evidente­mente, implicações fortes. A mais evidente delas é que a razão só funciona bem como fenômeno social. Se pensar­mos sozinhos, vamos muito provavelmente chafurdar ca­da vez mais fundo em nossas próprias intuições. Mas, se a utilizarmos no contexto de discussões, au­mentam bastante as chances de, como grupo, nos dar bem. Ainda que nem sempre, por
vezes as pessoas se deixam convencer por evidências.

Trabalhos mostram que, quando submetidas a situa­ções nas quais é preciso che­gar a uma resposta correta (testes matemáticos ou con­ceituais), pessoas atuando sozinhas se saem mal, acertando em tomo de 10% das respostas (Evans, 1989). Quando têm de solucionar os mesmos problemas em grupo, o índice de acerto vai para 80%. É o chamado efei­to do bônus de assembleia.

Teoria tem várias aplicaçõesem educação e política

A teoria dos franceses po­de ter aplicações práticas na educação e na política. Crianças se beneficiariam de mais trabalhos em grupo na escola - desde que bem de­senhados, é claro. Já a política, ganharia se conseguíssemos enfatizar si­tuações deliberativas, em, vez de apenas coletar opiniões. O pensamento coletivo é um bom caminho, concluem os autores. Mas naturalmen­te não existem garantias.

Embora as grandes reali­zações da humanidade te­nham vindo através do exer­cício coletivo da razão, ape­nas esforçar-se para utilizá­-Ia não basta. Os sucessos de­ penderam em boa medida de sorte epistêmica.

• Repercussão

O artigo de Mercier e Sper­ber foi publicado na edição de abril de "Behavioral and Brain Sciences", que costu­ma trazer um texto de fôlego e vários comentários meno­res de especialistas das mais variadas áreas. Como não poderia deixar de ser, eles apontam uma sé­rie de dificuldades e pontos controversos da teoria. Um dos mais lembrados é que os autores parecem su­bestimar a possibilidade de a razão - sob as condições cer­tas - nos levar a decisões in­dividuais corretas, mesmo que ela não tenha exatamen­te evoluído para isso.

Há também quem contes­te as próprias bases da pes­quisa, como a cientista Dar­cia Narvaez, da Universidade Notre Dame, na França. De acordo com a pesqui­sadora os estudos sobre ra­ciocínio são deterministas e enviesados, ignorando gran­de parte das situações em que usamos a razão.

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