Redes sociais enfrentam maré de ciberceticismo


Comunicação frenética on-line é forma de loucura, diz socióloga dos EUA.

Jornal Folha de São Paulo - por Pul Harris do "The Guardian"

Sherry Turkle afirma que a tecnologia está ameaçando dominar nossas vidas e nos tornar menos humanos. O modo frenético como as pessoas se comunicam on-li­ne por meio do Twitter, do Facebook e de mensagens instantâneas pode ser visto como uma forma de loucura moderna, de acordo com uma importante socióloga norte-americana. "Um comportamento que se tomou comum ainda é ca­paz de expressar os proble­mas que outrora nos levaram a vê-lo como patológico", es­creveu a professora do MIT (lnstituto de Tecnologia de Massachusetts) Sherry Tur­kle em seu novo livro, ""Alone Together" (Sozinhos juntos, na tradução literal), que está liderando um ataque à era da informação.

A tese de Turkle é simples: a tecnologia está ameaçando dominar nossas vidas e nos tornar menos humanos. Sob a ilusão de permitir que nos comuniquemos melhor, ela nos isola das reais interações humanas por meio de uma realidade virtual que é uma imitação medíocre do mun­do real. Mas o livro de Turkle está longe de ser o único nes­sa linha. A lista de ataques às mídias sociais é longa e vem de todos os cantos da acade­mia e da cultura popular. Em um recente best-seller norte-americano, "The Shallows" (Os Superficiais, na tradução livre), Nicholas Carr sugeriu que o uso de in­ternet estava alterando o nosso modo de pensar a pon­to de nos tornar menos capa­zes de absorver informações mais extensas e complexas, como as de livros e artigos de revistas. O livro baseou-se em um ensaio igualmente enfático que o pesquisador escreveu na revista "Atlan­tic" que trazia o título: "O Google está nos deixando es­túpidos?"

Outra linha de pensamen­to na área de ciberceticismo encontra-se em "The Net De­lusion" (A ilusão da rede), de Evgeny Morozov. Ele defende que as mídias sociais produziram uma geração de "passivistas", deixando as pessoas preguiçosas e crian­do nelas a ilusão de que clicar um mouse é uma forma de ativismo semelhante ao de doações em dinheiro e em tempo feitas no mundo real.

Outros livros são "The Dumbest Generation" (A ge­ração mais idiota, na tradu­ção literal), de Mark Bauer­lein, professor da Universi­dade Emory - no qual defen­de que "o futuro intelectual dos EUA parece ofuscado" e "We Have Met The Enemy" (Encontramos o inimigo), de Daniel Akst, que trata dos problemas de autocontrole no mundo moderno.

O livro de Turkle, porém é o qque tem inspirado mais polêmica. É um chamamento para deixarmos o BlackBerry fora do nosso alcance e ignorarmos o Facebook e o Twitter. "Nós inventamos tecnologias inspiradoras e sofisticadas, mas permitimos que elas nos diminuissem", diz em seu livro.

• Os defensores da  rede

Os defensores das redes sociais, por seu lado, dizem que o e-mail, o Twitter e o Fa­cebook têm levado a mais co­municação, não a menos - especialmente entre as pessoas que poderiam ter di­ficuldade para se encontrar no mundo real por causa de grandes distâncias ou dife­renças sociais.

As redes sociais são uma área nova e ainda é necessá­rio criar normas e regras de etiqueta que possam ser res­peitadas por todos os usuá­rios, segundo disse William Kist, especialista na área de educação da Universidade Kent State, em Ohio. Ele também salientou que o "mundo real" a que muitos críticos desfavoráveis às mí­dias sociais se referem nunca existiu de fato. Antes de as pessoas viajarem de ônibus ou de trem com a cabeça mer­gulhada em um iPad ou em um smartphone, elas nor­malmente viajavam em si­lêncio. "Nós não víamos as pessoas espontaneamente conversarem com estranhos. Elas simplesmente se isola­vam umas das outras", disse.

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