Sem projeto, país vive apagão de talentos


Profissionais são despreparados para a nova empresa, que exige trabalhador que pense com liberdade e autonomia.

Jornal Folha de São Paulo - por Marco Tulio Zanini

Aparentemente, o fato de o governo buscar facilitar a en­trada do capital intelectual estrangeiro para atender as demandas internas do país pode nos parecer que se trata somente de um sinal do vigor atual da nossa economia. Isso procederia, não fosse pelo fato de essa necessidade sinalizar muito mais a falta histórica de um projeto de
país que tenha considerado a educação como fator-chave para a formação de especia­listas em várias áreas do co­nhecimento, que hoje são tão necessários.

Primeiramente, devemos nos questionar se, de fato, es­tamos capturando os melho­res cérebros lá fora. Economias mais competi­tivas promovem a caça dos cérebros mais brilhantes pa­ra alavancar a inovação. Sa­bemos que, geralmente, não é esse o processo que está acontecendo no Brasil. Estamos precisando de pessoas com boa formação superior para trabalhar, mui­tas vezes, em indústrias de baixo valor agregado. O que mais nos impressio­na é que, tantos anos depois de Paulo Freire ter denuncia­do os ameaçadores defeitos do nosso modelo autoritário de educação, tenhamos feito tão pouco progresso em re­mover esses entraves.

Somada a nossa contem­porânea complacência em relação a uma educaçâo ba­seada em valores, temos for­mado profissionais com per­fil bastante inadequado para as demandas das empresas contemporâneas. Salvo honrosas exceções, temos formado legiões de alunos despreparados para o desafio daquilo que se con­vencionou chamar de Capita­lismo do Conhecimento. Mais do que conteúdos, a nova empresa precisa de pro­fissionais capazes de pensar com liberdade e autonomia. De se autogerenciar para en­tregar resultados complexos em cenários imprevisíveis.

A nossa experiência em consultoria nos permite dizer que vivemos algo semelhan­te a um apagão de talentos. A falta de um projeto educacional atrelado a um proje­to de país que contemple a educação como fator estraté­gico para o desenvolvimento sustentável da nação nos co­loca em forte desvantagem ante outros países, especialmente os asiáticos como a China e a Índia, que estão sa­bendo colocar na educação o seu projeto de futuro.

Contribuem para essa des­vantagem a ausência de va­lores de produtividade do trabalho e a falta de dissemi­nação da ideia de que a esco­la precisa ser comunidade de excelência, em que cada in­divíduo importa pela capaci­dade de contribuir com seu talento e fazer a diferença. A tarefa de capacitar ges­tores que saibam enfrentar os desafios impostos por no­vas formas de produção de valor, por meio da aplicação intensiva do conhecimento e de engenheiros e demais pro­fissionais de formação técnica aplicada, deve ser enten­dida como uma ação de con­tinuidade. Isso deve ser viabilizado via um projeto educacional que tem o seu início na escola primária, quando os valores que orientam os indivíduos estão sendo sedimentados.

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