Ser popular é melhor que estudar


O que importa é fazer, acontecer e aparecer a qualquer custo; ter êxito na vida é ganhar muito dinheiro.

Jornal Folha de São Paulo - por Rosely Sayão

Uma mãe estranhou a que­ da no rendimento escolar do seu filho, um jovem de 15 anos que começou a cursar o ensi­no médio neste ano. Até aqui, ele sempre havia levado a escola muito bem: faltava pouco, suas notas eram suficientes para não fi­car retido e também dava conta das tarefas que preci­sava fazer em casa. Neste ano, a coisa ficou feia: o garoto perde a hora re­gularmente, suas notas estão bem baixas, apontando risco de repetição, e, ainda pgr ci­ma, a mãe passou a receber recados da escola de que o fi­lho não tem feito as lições da­ das e tem arrumado encren­cas com os professores.

Ela decidiu conversar com o jovem, porque nunca exigiu que ele fosse um aluno nota 10, mas também não deseja que ele abandone os estudos, pelo menos até terminar a es­colaridade básica. Você pode imaginar que es­sa conversa não foi nada fá­cil, não é? Mas a mãe ficou espanta­ da mesmo com o argumento principal usado pelo filho pa­ra justificar suas atitudes em relação à escola. "Não quero ser um nerd, mãe",foi o que ele repetiu com veemência.

Nossa leitora quis saber o motivo do receio do filho de ser assim identificado e rece­beu a resposta de que nenhum "nerd" era popular na escola. Ao contrário, esses alunos costumavam ser alvo de gracinhas aos colegas. Essa mãe argumentou de todos os modos com o filho: deu exemplos de intelectuais reconhecidos mundialmente, falou de pessoas talentosas que são célebres por terem ex­pressado seu talento etc. Não adiantou nada. O filho ficou irredutivel e até aceitou se esforçar para pelo menos passar de ano, mas garantiu que tirar notas boas não que­ria de modo algum, tampou­co agir de modo a ser consi­derado um aluno "bonzinho". 

Nessa idade, eles querem ser populares e admirados pelos seus pares. Na chamada sociedade do espetáculo, precisam ter grande visibilidade no grupo que frequentam, o equivalen­te a ser considerado um fa­moso em nossa sociedade. Vale a pena, então, refle­tirmos a respeito de como es­ses jovens querem alcançar isso. E, para tanto, vou citar dois exemplos.

O primeiro, descobri por in­dicação de um conhecido: o ""Man versus Food", progra­ma em um canal a cabo mos­trando sempre um homem que tenta comer uma refeição enorme inteira. Vi dois episó­dios e considerei o suficiente. Assistir a um jovem enfren­tando quilos de comida, em geral gordurosa e apimenta­da, passando mal e colocan­do a saúde em risco para ga­nhar notoriedade provoca no espectador enjoa e mal-estar. Mas é assim que o protagonista do programa ganha notoriedade na vida.

O segundo exemplo é de co­nhecimento de muitos: uma peça publicitária que, para enaltecer as qualidades de um carro, compara dois ato­res, um considerado um grande ator e o outro, um ator grande. Nesse comercial, é um brasileiro que se presta a ocupar o lugar de ator gran­de (com atuação considera­da muito ruim em sua profis­são). Foi dessa maneira que ele saiu do ostracismo e vol­tou a ser ""famoso"".

Muitos jovens enalteceram a coragem do moço, sua be­leza e o dinheiro que ele ga­nhou para fazer parte dessa campanha. E então?

Temos passado essas li­ções aos jovens: ser corajoso é ser brigão, ser capaz de co­locar a saúde e a vida em ris­co; o que importa é fazer, acontecer e aparecer a qual­ quer custo; ter êxito na vida é ganhar muito dinheiro, não importa como. Essas lições convivem com os mais novos diariamente, e os convencem. As famílias e as escolas que valorizam virtudes como a ética, o respeito pela vida, o trabalho que beneficia a so­ciedade e a justiça, entre tan­tas outras questões importan­tes, parecem estar em gran­de desvantagem.

Não estão. As pessoas que os jovens mais admiram são seus pais e professores. Por isso, não podemos desistir desse trabalho de formigui­nha, mesmo que isso signifi­que remar contra a maré.

*É psicóloga e autora de Como educar meu filho.

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