Sofrer de ansiedade mostra que ainda somos humanos


Psiquiatra lança livro sobre ansiedade; para ela, apesar do risco trazido pelo transtorno, a indiferença é a maior ameaça.

Jornal Folha de São Paulo - por Débora Mismetti

Enquanto ainda formos an­siosos, há esperança. Para a psiquiatra carioca Ana Bea­triz Barbosa Silva, que está lançando "Mentes Ansiosas", quinto livro de uma série de
obras que já trataram de bullying, psicopatia e deficit de atenção, o problema é quando as pessoas viram as costas e não se importam mais com nada.

O novo livro da médica tra­ta dos principais transtornos de ansiedade, passando por pânico, timidez e estresse pós-traumático, detalhando sintomas e formas de tratamento. A obra traz ainda de­poimentos de pessoas que so­freram desses problemas.

Folha - Que tipo de pessoa é mais propensa a sofrer trans­torno de ansiedade?

Ana Beatriz Silva - As mais perfeccioriistas, as que não toleram atrasos, que são mais rígidas com os acontecimen­tos. Essas pessoas são mais controladoras e têm mais chance de sentir ansiedade em situações que as atrasam, que fogem do "script".

Folha - Por que um medo normal po­de virar uma fobia?

Ana Beatriz Silva - Muitas vezes esse medo está deslocado e é relacio­nado a situações de estres­se. A gente sempre associa o estresse ao trabalho, mas o maior desencadeador de ansiedade - patológica é o es­tresse prolongado e afetivo. Isso inclui estar num casa­mento ruim, ter uma pessoa da família com uma doença como Alzheimer, que vai des­troçando uma família.

O transtorno, na verdade, vai surgir depois de um ano e meio, dois. Muitas pessoas, mesmo vivendo uma situa­ção assim, tendem a negar o problema. Isso pode fazer a
ansiedade se manifestar co­mo fobia. Já em quem assu­me os problemas, o que pode acontecer é a evolução para depressão ou transtorno de pânico, que causa crises de sudorese, sensação de morte.

Folha - Mas há situações que logo de­ sencadeiam transtornos.

Ana Beatriz Silva - O que ocorre num espaço de tempo curto, como quan­do alguém sofre um seques­tro-relâmpago, é o estresse pós-traumático. A pessoa não quer mais sair, começa a ter pesadelos, flashbacks. Isso surge um mês depois do episódio. Não é como pânico, que é relacio­nado a uma coisa cotidiana. O estresse pós-traumático acontece quando você vive uma situação que ninguém está preparado para viver: ver alguém se matando ou um assassinato.

Folha - Estamos vivendo uma epide­mia desse transtorno?

Ana Beatriz Silva - Tem aumentado muito o número de casos. Uma pes­quisa recente mostra que a violência está em segundo lugar entre as preocupações do brasileiro e que 51% já mu­daram seus hábitos por causa da violência. Cerca de 80% já presenciaram uma cena de violência. Nessas condições, surge a possibilidade do es­tresse pós-traumático.

Folha - O mundo está se adaptando para abrigar tantos ansiosos?

Ana Beatriz Silva - Sim. Mas uma das formas de reagir a esse ambiente é se tornar indiferente. Um vídeo que está rodando a internet mostra uma menina na China sendo atropelada, e ninguém para. É uma cena dantesca.

O mundo pode estar crian­do uma população de indife­rentes, e isso é é muito peri­goso. Adoecer de ansiedade é sinal de que somos huma­nos, mas que precisamos mudar algo para sobreviver com dignidade. Um quarto da população vai desenvol­ver transtorno. É um número assustador. Isso diz também que não estamos perdendo nossa humanidade. Mas, para preservá-Ia, muita coisa vai ter de mudar.

Folha - O que dá para mudar?

Ana Beatriz Silva - Tentaram nos convencer de que quanto mais ansioso você é, mais você é produti­vo. Isso é uma grande menti­ra. Estão querendo nos con­vencer de que não dar conta disso é uma incapacidade. E preciso ter o mínimo de ansie­dade. Mas não precisa ficar "pilhado", com uma sineta tocando para dizer se cumpri uma meta. As pessoas preci­sam se juntar para combater isso, e também a corrupção. Isso funciona como um an­siolítico para a sociedade.

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