Sonho pode apagar memórias negativas


Experimento feito por pesquisadores da Califórnia monitorou cérebro de voluntários que viram imagens "fortes". Estudo mostrou que fase do sono marcada por sonhos diminui o estresse cerebral ligado a essas experiências.

Jornal Folha de São Paulo - por Sabine Righetti

Qual a receita para apagar uma memória dolorosa? O tempo, claro - incluindo o tempo gasto no sono e nos so­nhos. É o que sugere uma pes­quisa da Universidade da Ca­lifórnia em Berkeley (EUA). De acordo com os cientis­tas, os processos químicos ce­rebrais durante o sonho ajudam a filtrar as experiências emocionais negativas.

É na fase de sonhos do so­no, conhecido como REM (si­gla inglesa para "rapid eye movement", ou movimento rápido do olho), que o cére­bro trabalha as experiências emocionais. Essa fase equi­vale a 20% de uma noite.

O estudo dos EUA contou com 34 jovens saudáveis, di­vididos em dois grupos. Metade viu 150 imagens "fortes" na parte da manhã e à noite - eles ficaram acorda­ dos entre as sessões. A outra metade dormiu uma noite en­tre as visualizações. Os pesquisadores observaram que aqueles que dormi­ram entre as visualizações re­lataram uma reação emocio­nal melhor às imagens. Além disso, exames de res­sonância magnética dos par­ticipantes enquanto dormiam mostraram uma redução na atividade da amígdala (região cerebral que processa as emo­ções) no sono profundo.

• REM

"Esse é o resultado mais in­teressante do trabalho. Não havia ainda uma relação comprovada entre sono REM e redução da atividade da amígdala", analisa o neurocientista Sidarta Ribeiro, da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte). Os resultados sinalizam a importância do sonhar. "O es­tágio do sonho é uma espécie de terapia durante a noite", explica Matthew Walker, principal autor do estudo que está na "Current Biology".

O trabalho também indica porque as pessoas com es­tresse pós-traumático, como veteranos de guerra, sofrem com pesadelos. A "terapia noturna" não funciona direito em pessoas traumatizadas, pois o sono REM costuma ser interrompi­do recorrentemente. Ao dormir, a pessoa revive o trauma porque a emoção não foi devidamente arrancada da memória no sono.

Os pesquisadores também registraram a atividade do cé­rebro dos participantes en­quanto eles dormiam, usan­do eletroencefalograma. Durante o sono REM, a ati­vidade cerebral diminui. Isso indica que a queda de estres­se no cérebro ajuda a proces­sar as reações emocionais às experiências do dia. "Durante o sono REM há uma diminuição dos níveis de norepinefrina, um neuro­transmissor associado ao es­tresse", explica Walker.

Os pesquisadores da Uni­versidade da Califórnia em Berkeley têm trabalhado há algum tempo ligando o sono ao aprendizado, à memória e à regulação do humor. Mas ainda não há um consenso científico sobre a função do sonho na saúde das pessoas.

Até a publicação de "A In­terpretação dos Sonhos", de Sigmund Freud, concluída no final do século 19, os sonhos eram vistos como premoni­ções ou eram relacionados a problemas digestivos. Freud lançou a ideia de que o sonho tinha uma liga­ção com o processamento in­consciente das emoções. "Hoje, fazemos trabalhos que têm a ver diretamente com o que Freud estudou mas de maneira mais apro­fundada", explica Ribeiro.

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