Sono, obesidade e diabetes


Inquéritos epidemiológicos avaliaram os efeitos deletérios que a privação crônica de sono exercem.

Jornal Folha de São Paulo - por Drauzio Varela

Vivemos numa cultura que tem orgulho de dormir pouco. Pessoas que dormem nove horas por dia são consideradas preguiçosas, enquan­to admiramos as que em cinco ou seis já pularam da cama. Nos 5 milhões de anos que nos precederam, nossa espécie viveu num mundo sem luz elétrica, em que a rotina de sono e vigília era orga­nizada em conformidade com a al­ternância dos dias e das noites.

A claridade que chegava às célu­las fotossensiveis da retina ao raiar do sol estimulava as áreas cerebrais responsáveis pelo controle da divi­são celular, da produção dos hor­mônios e das proteínas envolvidas nas reações metabólicas necessá­rias para enfrentar a luta diária. Ao contrário, a chegada da noite alterava o metabolismo de forma a sintetizar novas proteínas e hormônios, neurotransmissores, melato­nina e outros mediadores para nos tornar mais contemplativos, com a musculatura mais relaxada e pre­dispostos a achar um canto na ca­verna para entrarmos em modo de hibernação.

Na evolução, em respeito a essa ordem natural, o conjunto das rea­ções bioquímicas responsáveis pe­lo metabolismo dos animais - e também das plantas, fungos e bac­térias - organizou-se em ciclos diá­rios com duração aproximada de 24 horas, característica que na déca­da de 1950 recebeu o nome de ritmo circadiano (do latim: "circa diem", cerca de um dia). Embora os ciclos circadianos se­jam controlados por mecanismos endógenos autoajustáveis, indepen­dentes da consciência, fatores ex­ternos podem interferir na sua du­ração. Entre eles, o mais importan­te é a luz do solou de fontes artifi­ciais, especialmente as que emitem a banda azul do espectro luminoso.

Seres humanos mantidos em pe­numbra silenciosa durante 28 horas não resistem em vigilia. A interfe­rência com a duração dos dias e das noites que subverte a attemância da exposição à claridade e à escu­ridão é a causa do fenômeno conhe­cido como jet lag. Inquéritos epidemiológicos reali­zados nos últimos 20 anos avaliaram os efeitos deletérios que a pri­vação crônica de sono exerce sobre a saúde humana. Alguns deles le­vantaram a suspeita de que dormir pouco encurtaria a longevidade.

Em 2010, um estudo realizado no Women"s Hospital, em Boston, re­velou que homens jovens mantidos em regime de privação de sono por apenas uma semana desenvolvem resistência à insulina, condição que leva ao aumento da concentração de glicose no sangue, característica do diabetes. Os autores desse estu­do acabam de atualizâ-lo em uma publicação na revista "Science Translational Medicine". Durante seis semanas, mantive­ram 21 participantes numa das suí­tes que o hospital transformou em laboratório de estudo do sono. Todos foram mantidos num regime que lhes permitia dormir apenas cinco, seis horas, a cada período de 24.

O horário de ir para cama muda­va todos os dias. Para interferir com o ritmo circadiano, os quartos não ti­nham janelas, e os ciclos de luz e escuro foram programados para durar 28 horas, em vez das 24 habituais. Com o objetivo de prevenir que o ritmo circadiano se reajustasse por conta própria, a iluminação era mantida em níveis equivalentes ao do entardecer. Não foi permitido acesso a TV, rádio ou internet.

Amostras de sangue colhidas em jejum acusaram concentrações mais baixas de insulina, associadas ao au­mento das taxas de glicose, em todos os participantes. Em três deles, a gli­cemia atingiu a faixa que vai de cem a 120, rotulada de pré-diabetes. A energia gasta em repouso (que quantifica quantas calorias consome o corpo parado) caiu em média 8%. Se esse nível de consumo energético mais econômico fosse mantido por um ano, causaria um aumento do pe­so corpóreo de quase seis quilos.

Depois de um período de dez dias de recuperação, em que os partici­pantes permaneceram no laborató­rio, porém mantidos em ciclos de claro e escuro com dura ão de 24 horas, mas dormindo dez horas du­rante a noite, a secreção de insuli­na e os níveis de açúcar na circulação voltaram aos valores normais.

Para aqueles que o trabalho obri­ga a passar meses ou anos em ciclos de dia e noite irregulares, essas al­terações seriam igualmente rever­síveis?

Você consegue, leitor, dormir e acordar todos os dias na mesma ho­ra? Eu, não.

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus