Transtorno de Déficit de Atenção – Hiperatividade


Os pacientes com este diagnóstico apresentam prejuízos no desempenho acadêmico e social.

Revista Escola Particular - por Dr. Gustavo Teixeira.

O déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) é um dos transtornos comportamentais com maior incidência na infância e adolescência. Pesquisas realizadas em diversos países revelam que o TDAH está presente em torno de 5% da população em idade escolar. Trata-se de uma síndrome clínica caracterizada basicamente pela tríade sintomatológica: déficit de atenção, hiperatividade e impulsividade, mas não há a necessidade de que os três sintomas estejam presentes simultaneamente.

Comportamentos característicos de crianças e adolescentes com TDAH incluem dificuldade em focar a atenção em um único objeto, são facilmente distraídos e/ou agem como se estivessem no mundo da lua. Podem não terminar seus deveres de casa, apresentando grande dificuldade em se organizar e frequentemente perdem seus materiais escolares, chaves, dinheiro ou brinquedos.

A criança pode se apresentar inquieta, não conseguindo permanecer sentada, abandonando sua cadeira em sala de aula ou durante o almoço de família. Está sempre a mil por hora, como se estivesse "ligado em uma tomada de 220 v", fala em demasia, dificilmente brinca silenciosamente, está sempre gritando e é muito impulsivos.

Os pacientes com este diagnóstico apresentam prejuízos no desempenho acadêmico e social, pois têm dificuldade em se organizar, em manter atenção em sala de aula, em realizar deveres escolares ou permanecer sentados ou quietos.

O diagnóstico do TDAH é essencialmente clínico. Não existem exames laboratoriais ou de imagem que façam o diagnóstico. A investigação do TDAH envolve detalhado estudo clínico através de avaliação com os pais, com a criança e com a escola. Escalas de avaliação padronizadas para pais e professores podem ser utilizadas. A avaliação com os pais deve abranger uma história detalhada de todo o desenvolvimento da criança ou adolescente contendo desde a história gestacional da mãe até os dias atuais.

Por fim, deve haver claro prejuízo no funcionamento social, acadêmico ou ocupacional da criança ou adolescente. Sem prejuízo, não há o diagnóstico do transtorno.

Crianças com TDAH não diagnosticadas e não tratadas apresentam uma série de prejuízos no decorrer dos anos. Inicialmente ocorre um baixo rendimento escolar, a criança não consegue acompanhar sua turma, sendo muitas vezes até reprovada. Perda da autoestima, tristeza, falta de motivação nos estudos e prejuízos nos relacionamentos sociais podem desencadear episódios depressivos graves. Durante a adolescência, os prejuízos acadêmicos e sociais acarretados podem facilitar abandonos escolares ou da faculdade ou propiciar o início do uso abusivo de drogas e álcool. Possivelmente esses jovens se tornarão adultos inseguros, pouco habilidosos socialmente, com menos anos de educação, trabalhando nos piores empregos e com maiores dificuldades de serem absorvidos pelo mercado de trabalho.

As causas do TDAH ainda não estão bem estabelecidas. Acredita-se em uma origem multifatorial, sendo que o fator mais importante é a herança genética. Muitas crianças possuem familiares (pais, tios, avós, irmãos) com o mesmo diagnóstico. A incidência pode chegar até dez vezes mais em famílias de crianças com TDAH quando comparadas à população em geral. Alguns estudos relacionam a herança genética ligada a genes do receptor e transportador de dopamina, substância que realiza juntamente com outras substâncias a comunicação entre os neurônios. Filhos de pais hiperativos possuem maior chance de terem o transtorno, assim como irmãos de crianças hiperativas possuem até duas vezes mais chances de apresentar o diagnóstico quando comparadas com irmãos sem o transtorno.

Estudos já demonstram que os cérebros de crianças com TDAH funcionam de forma diferente dos de crianças sem o transtorno. Essas crianças apresentam um desequilíbrio de substâncias químicas que ajudam o cérebro a regular o comportamento. Estudos neuropsicológicos sugerem alterações no córtex pré-frontal e de estruturas subcorticais do cérebro. Prejuízos nos testes de atenção, aquisição e função executiva sugerem também um déficit do comportamento inibitório e de funções executivas.

Faz-se muito importante ressaltar que, à luz da ciência, não existem estudos que comprovem teorias que liguem o surgimento do TDAH às dietas, aditivos alimentares, açúcares ou problemas ortomoleculares que justifiquem a necessidade de nutrientes especiais, vitaminas ou dietas restritivas. Sendo assim, alimentos não causam TDAH, assim como dietas especiais não são opções de tratamento de um problema comporta mental caracteristicamente de origem genética.

O tratamento deve envolver uma abordagem multidisciplinar associando o uso de medicamentos a intervenções psicoeducativas e psicoterapêuticas.

As medicações de primeira escolha para o TDAH são os estimulantes. Trata-se de fármacos seguros, eficientes, muito bem tolerados pelos pacientes e sem riscos de dependência química.

O medicamento estimulante é rapidamente absorvido após a ingestão oral e age no cérebro aumentando as concentrações de dopamina e noradrenalina, dois neurotransmissores que estão diminuídos no cérebro de portadores do TDAH. O medicamento tem um início de ação rápido e cerca de 30 minutos após a administração, o portador já é capaz de perceber os efeitos da substância: melhoria da capacidade at tencional, diminuição do comportamento hiperativo, diminuição da inquietação, da agitação e da impulsividade.

As intervenções psicoeducativas estão relacionadas com a educação e aprendizagem de pais, professores e paciente acerca do transtorno. Materiais didáticos, folders e livros devem ser ofertados, programas de treinamento para pais e professores podem ser desenvolvidos para ensiná-Ios a lidar com o transtorno.

Mudanças simples na rotina da criança ou adolescente, como sentar em carteiras próximas ao quadro negro e longe de janelas, ajudam a focar a atenção mais facilmente. A determinação de rotinas de estudo, com horários predeterminados combinados em conjunto com a criança, aplicação de pausas regulares durante o estudo, associada a ambientes silenciosos, longe de estímulos visuais como brinquedos, televisão, rádio, telefone ou materiais escolares que não o de estudo naquele momento, podem auxiliar muito na melhoria do rendimento escolar.

A terapia cognitivo-comportamental pode ajudar a criança no controle de sua agressividade, ajuda a modular seu comportamento social, ensina estratégias de solução de problemas, controla a impulsividade e a regulação de sua atenção. A terapia cognitivo-comportamental também deve ser utilizada sempre que transtornos associados, como depressão ou transtornos ansiosos, estejam presentes. .

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