Uso de soníferos triplica risco de morte


Drogas aumentam risco de quedas, acidentes e interrupção da respiração.

Jornal Folha de São Paulo - por Débora Mismetti

Pesquisa acompanhou mais de 10,5 mil usuários dos remédios durante até cinco anos nos Estados Unidos. O consumo de remédios so­níferos da classe dos hipnóticos aumenta o risco de mor­te por qualquer causa em pe­lo menos três vezes.

A conclusão é de um estu­do que acompanhou mais de 10.500 consumidores dessas drogas nos EUA a ser publi­cado hoje na revista "BMJ Open", da editora do "British Medical Journal". Entre 2002 e 2007, médicos da clínica de sono Viterbi, na Califórnia, e do Centro de Me­dicina Preventiva de Jackson Hole, em, Wyoming, analisa­ram dados de pessoas toman­do hipnóticos como zolpidem (Stilnox) e zopiclone (Imova­ne) e também outros sedati­vos, como barbitúricos e ben­zodiazepínicos. Entre esses últimos, são usados como hipnóticos o mi­dazolam (Dormonid) e o flu­nitrazepam (Rohypnol).

O aumento do risco de mor­te foi observado até para os pacientes que tomavam as menores doses entre os pa­cientes acompanhados (me­nos de 18 pílulas por ano). Segundo os autores, mui­tos efeitos dos soníferos po­dem levar à morte. Os hipnóticos prejudicam as funções motoras e cogni­tivas, aumentando o risco de acidentes de carro e de que­ das em casa, especialmente no caso de idosos.

De acordo com o psiquia­tra Sergio Hototian, do Hos­pital Sírio- Libanês, os mais velhos são os que costumam tomar soníferos por mais tem­po e têm maior resistência a deixar os remédios. "Com os hipnóticos, o ris­co de queda aumenta em três ou quatro vezes." Outro problema comum é a mistura dos remédios com álcool, o que aumenta o ris­co de pausas prolongadas na respiração durante o sono. "Uma taça de vinho pode ser suficiente para levar a uma overdose", afirma o médico. O efeito de sonambulismo, observado em alguns pacien­tes após o uso de remédios como o zolpidem, também es­tá associado a um risco maior de acidentes. Foi o caso da aposentada R.G.R., 55, que usou o remé­dio zolpidem por quase dez anos. Ela se queimou en­quanto cozinhava, após to­mar os comprimidos (leia abaixo).

O estudo americano tam­bém associou o uso dos hip­nóticos com maior risco de desenvolver câncer, 35% maior entre os pacientes que tomavam o maior número de doses por ano. Para Hototian, há um ex­cesso na prescrição de remé­dios para dormir. Muitos que precisam tomar os soníferos o fazem de forma errada. "É preciso saber a causa da insônia. Muitas vezes, a pes­soa tem uma depressão que causa falta de sono. É melhor tratar com antidepressivos do que com hipnóticos."

O psiquiatra afirma que muitos dos insones não têm paciência de tentar outros tratamentos que não sejam os soníferos. "Após a aposen­tadoria, é normal que as pessoas durmam menos à noite, mas elas querem ter um sono como o da época em que tra­balhavam. Quando você não dá o remédio, alguns acabam procurando outro médico."

• Depoimento

Ficava andando em casa como sonâmbula.

"Tenho insônia desde os 12 anos. Comecei a tomar remédios na vida adulta. Mais tarde, comecei a to­mar o zolpidem. Funciona­va bem, mas eu tomava e não dormia logo. Ficava andando como sonâmbula. Aumentei a dose do remédio por con­ta própria. Passava o dia "chapada", esquecia as pa­lavras no meio da frase. Um dia, tomei o remédio e fui cozinhar à noite. O fo­go subiu pelo lado da pa­nela e tive queimaduras de terceiro grau no braço.

No fim, tomava 20 com­primidos por dia. Parei por pressão da minha família. Fui internada para me de­sintoxicar.

R.G.R, 55, aposentada, que tomou zolpidem por quase dez anos.

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus