USP Acha Área Cerebral do Medo Primitivo


Localização de região no sistema nervoso pode auxiliar na criação de novos medicamentos contra a ansiedade.

Jornal Folha de São Paulo - por Claudio Angelo

Que gato escaldado tem medo de água fria não é novidade para ninguém. Mas um grupo de pesquisadores da USPde Ribeirão Preto agora descobriu o porquê. Eles identificaram uma região do cérebro que dispara sempre que se encontra uma situação associada com ansiedade.

Chamada núcleo mediano da rafe, essa região pode estar associada ao pavor que as pessoas já assaltadas sentem ao andar à noite por uma rua deserta.

A descoberta adiciona uma peça ao circuito do medo no cérebro: o mesencéfalo, uma área primitiva do sistema nervoso.

Até agora, o conjunto de interruptores cerebrais conhecidos, acionados numa situação de ansiedade, começava na amígdala, pequena zona na base do telencéfalo, a área superior do cérebro.

Segundo o neurologista Joseph LeDoux, da Universidade de Nova York (EUA), a amígdala dá o pontapé inicial nas reações de ansiedade, como o aumento da pressão sanguínea, antes mesmo que a pessoa perceba o perigo.

""Nós descobrimos que o núcleo mediano da rafe precede a amígdala", disse à Folha o médico Marcus Lira Brandão, do setor de Psicobiologia da USP de Ribeirão Preto. Ou seja: o medo é bem mais irracional do que se acreditava.

A hipótese de que o núcleo pudesse estar associado ao medo foi proposta pela primeira vez em 1978, mas acabou esquecida .

Para verificá-Ia, a equipe de Brandão pôs ratos em uma caixa escura e deu choques elétricos nos animais. Depois dividiu as cobaias em dois grupos: um deles teve o núcleo mediano da rafe danificado por cirurgia. O outro permaneceu com a região intacta.

Os pesquisadores observaram que animais com danos na região reagiam aos choques, mas eram indiferentes ao contexto do trauma, ou seja, ao aspecto da caixa.

Ratos com o núcleo intacto ficavam paralisados de medo tão logo eram postos na caixa.  "Os ratos são capazes de fazer uma representação do contexto do trauma", afirmou Brandão. "Se o contexto é aversivo, o estímulo passa núcleo mediano da rafe e chega às áreas superiores do cérebro."

Os pesquisadores estão tentando, agora, descobrir qual é o caminho desse estímulo. Se confirmada, a descoberta pode ajudar no desenvolvimento de novos medicamentos para os distúrbios de ansiedade, que, segundo a Organização Mundial da Saúde, causam 50% das desordens mentais.

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