Velhos neurônios, novos truques


Células cerebrais podem nos ajudar a lembrar o passado assumindo novas funções enquanto envelhecem.

Revista Scientific American - por Meehan Crist

Há décadas os pesquisadores sabem que nossa capacidade de lembrar experiências cotidianas depende de um fino cinturão de tecido cerebral chamado hipocampo. Acre­ditava-se que funções básicas da memória, como a produção de lembranças novas e a recuperação de antigas, eram executadas nesse cinturão por conjuntos diferentes de neurônios. Agora, descobertas sugerem que os mesmos neurônios na verdade executam essas duas funções tão diferentes mudando de papel conforme envelhecem.

A vasta maioria desses neurônios do hi­pocampo, chamados de células granulares, se desenvolve quando somos muito jovens e permanecem no lugar durante nossa vida. Mas cerca de 5% deles se desenvolvem na vida adulta através do nascimento de novos neurônios, processo conhecido como neu­rogênese. Células granulares jovens ajudam a formar novas lembranças mas, conforme envelhecem, mudam de função para ajudar a lembrar o passado. As células granulares mais novas preenchem a lacuna, assumindo o papel de ajudar a formar novas lembran­ças. Susumu Tonegawa, do Massachusetts Institute of Technology, e seus colegas pu­blicaram as descobertas em 30 de março no periódico Celf.

A equipe de Tonegawa testou o papel dessas células nascidas em adultos alteran­do geneticamente ratos nos quais as células velhas podiam ser desligadas seletivamente. Então eles puseram os animais em vários la­birintos submetendo-os a testes de condi­cionamento de medo, o que demonstrou que células granulares jovens são essenciais para lembrança de eventos com base em pequenos sinais. Essa descoberta sugere que danos de memória comuns ao envelhe­cimento e ao transtomo de estresse pós­-traumático podem estar conectados a um desequilíbrio entre células novas e velhas. "Se você não tiver uma quantidade normal de células jovens pode ter problemas para distinguir dois eventos que seriam vistos co­mo diferentes por pessoas saudáveis", expli­ca Tonegawa. Ao mesmo tempo, a presença de muitas células velhas poderia tornar mais fácil lembrar experiências traumáticas pas­sadas com base em sinais atuais.

Pesquisas anteriores mostraram que tan­to as experiências traumáticas quanto o en­velhecimento natural podem levar a uma menor produção de novos neurônios no hi­pocampo. Mas a relação de causa-efeito en­tre problemas de neurogênese e transtomos de memória ainda deve ser estabelecida. Se uma conexão desse tipo for descoberta, abrirá a porta para uma nova classe de trata­mentos visando o estímulo da neurogênese. E mudará a forma como pensamos o funcio­namento da memória.

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