Vício: natureza ou hábito?


Por que alguns sobrevivem ao uso abusivo de drogas e álcool, enquanto outros sucumbem ao vício? Cientistas começaram a encontrar a resposta.

Jornal Folha de São Paulo - por Richad A. Friedman

Segundo a Pes­quisa Nacional sobre o Uso de Drogas e Saúde de 2008,46% dos americanos experimentaram uma droga ilícita. Mas só 8% a utilizaram no últi­mo mês. Em comparação, 51% usaram álcool no último mês. A maioria dos que experimen­tam drogas não se vicia, portan­to. Então, quem corre o risco?

Os clínicos sabem que os pa­cientes com certos tipos de do­enças psiquiátricas - incluindo distúrbios de humor, ansiedade e personalidade - têm maior probabilidade de se tornarem viciados. Segundo o Instituto Nacional de Saúde Mental, em seu Estudo Epidemiológico de Área de Atendimento, os pa­cientes com problemas de saúde mental apresentam quase três vezes mais chances de ter um distúrbio aditivo do que os que não têm. Contrariamente, 60% das pessoas com distúrbio de abuso de substâncias também sofrem outra forma de doença mental. Ainda não está claro se o vício predispõe alguém à doença mental ou vice-versa.

Cientistas sabem que ter uma doença mental também aumen­ta significativamente o risco de dependência e vício. O senso co­mum é que a ligação representa uma forma de "automedicação" - isto é, as pessoas estão "medicando" seu sofrimento.

O álcool e as drogas afetam o humor e o comportamento ao ativar os mesmos circuitos cerebrais que sofrem distúrbios nas principais doenças psiqui­átricas. Não é de surpreender, portanto, que pacientes depri­midos e ansiosos recorram ao álcool e a outros sedativos. Mas essas substâncias são antide­pressivos terríveis que agravam o problema subjacente, levando a uma espiral descendente de depressão e vício. Certos distúrbios de persona­lidade - pacientes narcisistas ou pessoas com transtorno de personalidade limítrofe tam­bém têm maior probabilidade de abuso de drogas e álcool.

Mas novas evidências suge­rem que o abuso de drogas tam­bém pode ser um distúrbio cere­bral desenvolvimental, e que as pessoas que se tornam viciadas têm uma estrutura diferente da­quelas que não se tornam. A doutora Nora Volkow, dire­tora do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas, demonstrou, em vários estudos, que os viciados em drogas têm menos receptores de dopamina nos caminhos de recompensa do cé­rebro do que os não viciados. A dopamina é crítica para a expe­riência do prazer e do desejo. Quando ela comparou as reações de viciados e controles normais que receberam um estimulante, descobriu que os controles com grande número de receptores D2, um subtipo de receptores de dopamina, o achavam repulsivo, enquanto os viciados com níveis baixos de receptores o achavam agradável. Isso sugere que os cérebros dos viciados podem ter sistemas de recompensa entorpecidos, e que os prazeres cotidianos não chegam perto da poderosa re­compensa das drogas. Mas as pessoas também são influenciadas pelo ambiente.

A cantoraAmy Winehouse, 27, cuja batalha com o vício ampla­mente noticiada parece ter tido papel importante em sua morte, trafegava em um mundo aparentemente inun­dado por drogas ilícitas e álcool. Até as pessoas que não são predispostas ao vício podem se tornar dependentes de drogas e álcool com a exposição constan­te, como revelaram estudos. Os primatas, que não são predispostos ao vício, tornam­-se usuários compulsivos de cocaína conforme os receptores D2 declinam no cérebro, notou a doutora Volkow. E uma maneira de produzir esse declínio é co­locar os animais em situações sociais estressantes, em que há fácil acesso às drogas. Parece que os humanos também, inde­pendentemente do risco genéti­co, podem se tornar viciados nas circunstâncias certas.

Essa ideia tem profundas implicações para o tratamento. O uso de drogas em longo prazo geralmente começa na adoles­cência, quando o cérebro é mais maleável. Nas pessoas mais vul­neráveis, o abuso de substâncias deve ser confrontado cedo. Quem pode experimentar drogas sem maiores consequên­cias e quem será destruído por elas resulta de uma interação complexa de genes, ambiente e psicologia. E de pura sorte.

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