Virtudes e vícios dividem os mesmos circuitos no cérebro


Neurocientista mostra em livro que cérebro não discrimina prazer de jogo e bebida de atividades como filantropia.

Jornal Folha de São Paulo - por Cláudia Collucci

O que o orgasmo, a comi­da gordurosa, o jogo, a bebi­da, a filantropia, os exercícios fisicos e as drogas têm em co­mum? Sob o ponto de vista químico e fisiológico do cére­bro, muita coisa.

Em seu recente livro, "The Compass of Pleasure" (A bús­sola do prazer, sem edição no Brasil), o neurocientista David Linden, professor na Uni­versidade Johns Hopkins, re­vela como agem os diferentes tipos de prazer nos circuitos cerebrais e como eles podem se tomar vícios. "Há uma unidade neural de virtude e vício. E o prazer é a nossa bússola, não impor­ta o caminho que tomamos", diz Linden, 50.

Ele afirma que há estudos experimentais para o desen­volvimento de uma vacina ca­paz de prevenir dependên­cias em pessoas com predis­posição genética. Os genes respondem por até 60% da vulnerabilidade ao vício. Em um futuro distante, Linden aposta que haverá meios artificiais de ativar os mecanismos de prazer. "Tal­vez teremos algo como um ca­pacete que ativará os circui­tos cerebrais do prazer na in­tensidade que você desejar."

Folha - Por que o sr. escreveu um livro sobre prazer?

David Linden - Todo mun­do está interessado em pra­zer. As pessoas amam co­mida, sexo, jogos, drogas, exercícios. E o prazer é uma questão central no nosso sis­tema legal e governamental. Várias leis falam de prazer, quando regulam atividades sexuais, drogas ou jogos. No entanto, hoje sabemos que, do ponto de vista fisioló­gico e químico, o prazer que sentimos em atividades como correr ou fazer um trabalho fi­lantrópico é o mesmo dos ví­cios. Há uma unidade neural de virtude e vício. E o prazer é a nossa bússola, não importa o caminho que tomamos.

Folha - Quando o prazer vira vício?

David Linden - O prazer está associado à liberação de dopamina no cé­rebro. Esse neurotransmissor dispara quando ingerimos uma comida deliciosa, du­rante o orgasmo ou quando praticamos um ato generoso. A dopamina integra o siste­ma de prazer e recompensa. Os genes respondem por até 60% da vulnerabilidade à dependência. Se você her­da variantes desse gene que levam a baixos níveis de re­ceptores de dopamina, isso o fará mais suscetível ao vício. É como se as pessoas ficas­sem doentes de prazer.

Folha - O que acontece com o cérebro de uma pessoa dependente?

David Linden - Se eu pedir para três pes­soas com vícios diferentes escreverem sobre os senti­mentos associados a essas experiências, você verá que são os mesmos. Começam porque se sen­tem bem e, depois, vão preci­sando de mais e mais. Todo o desejo se transforma em necessidade. A dependência gera mu­danças estruturais, químicas e elétricas dos neurônios. Vamos dizer que você é alco­ólatra e está "limpo" há três anos. Se você toma um drin­que que seja, a sensação de prazer será muito maior para você do que para alguém que nunca foi dependente.

Folha - Por que é tão dificil o trata­mento do dependente?

David Linden - O dependente costuma recair em períodos de muito estresse. Sabemos hoje que existem muitas atividades prazerosas, como a prática de exercícios físicos, de me­ditação, de rezas ou mesmo brincadeiras com os filhos, que podem ajudar a aliviar o estresse e as recaídas.

Folha - O sr. acredita na possibilida­ de de terapias que evitariam a dependência?

David Linden - Há pesquisas com animais para desenvolver uma vacina para pessoas com predispo­sição genética ao vício. Mas há muita polêmica, especial­mente pelas questões éticas [de se medicar antes de o problema se manifestar]. No momento, não há mui­tas drogas eficazes para tratar as dependências. Mas acho que nos próximos 15 anos te­remos remédios eficazes para as crises de abstinência.

Folha - Mas chegaremos a ter droga capaz de curar uma dependência?

David Linden - Não acredito que exista ou vá existir uma cura fácil. As pessoas fazem terapias em clínicas de reabilitação, mas estudos já mostraram que elas não são muito eficazes. Psicoterapia e drogas po­dem ajudar. Mas internar a pessoa, deixá-Ia anestesiada por três dias e dizer que está curada, para mim, é mentira. Eles só querem seu dinheiro.

Folha - O sr. acredita que a obesidade seja consequência de um vício em comida?

David Linden - Sim. Nós gostamos de pen­sar em "metabolismos" para explicar por que ganhamos peso. Na verdade, 90% das pessoas que estão severa­mente obesas o são porque comem demais, não porque têm desordens metabólicas. Isso acontece porque seus cérebros são diferentes. Nossos corpos estão adap­tados para aquelas situações de milhares de anos atrás em que você precisava de muita gordura e açúcar porque você não sabia se teria comida na semana seguinte. Só assim você sobrevivia, tinha filhos e passava seus genes adiante.

Folha - E a indústria aprendeu rápido como manipular nossos cérebr ros para comer mais alimentos que engordam...

David Linden - É verdade. Nos EUA, a mé­dia de peso da população hoje está 11 quilos acima do que era na década de 1960. E não é porque nossos genes muda­ram. Quando eu era criança, a garrafa de Coca-Cola era pequena; agora veja o tamanho dela! Quanto maior o tamanho das porções, mais você tende a comer e a beber. As corporações aprende­ram que certos sabores aju­dam as pessoas a comer em excesso. Comer muitos ali­mentos gordurosos e doces, por muito tempo, mu­da os circuitos do prazer do seu cérebro. Então você quer comer mais e mais. É pareci­do com heroína.

Folha - E as paixões, o orgasmo, tam­bém podem viciar?

David Linden - Sim, o processo é bem pa­recido. A Universidade Albert Einstein, em Nova York, com­parou o funcionamento dos cérebros de pessoas em no­vos relacionamentos quando elas olham para fotos do par­ceiro e para fotos de amigos. Não foi surpresa ver que há um disparo de dopamina ao olhar para a foto do amado. Interessante também é que partes do cérebro têm funções desligadas nesses estados de paixão ou duran­te o orgasmo, especialmente aquelas áreas relacionadas à cognição e lógica. Quando estamos muito apaixonados não conseguimos fazer uma boa avaliação da pessoa.

Folha - Qual será o futuro do prazer, especialmente na nossa atual sociedade em que é tão fácil encontrá-lo?

David Linden - O acesso facilitado a coi­sas prazerosas, sem dúvida, aumenta o seu uso. Se você gostava de jogar, tinha que ir ao cassino. Agora, qualquer um entra na internet e pode jogar o tempo que quiser. Em um futuro distante, penso que teremos meios de ativar nossos mecanismos de prazer de forma não invasiva, talvez algo como um capace­te de beisebol que, colocado na cabeça, ativará seus cir­cuitos cerebrais do prazer na intensidade que você desejar.

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus