Viver sem morrer


Há previsões de uma revolução na medicina com descrições de novas descobertas, muitas ainda em escala laboratorial.

Revista Scientific American Brasil por Acary Souza Bulle Oliveira.

Há séculos, em um ponto perdido do Universo, banhado pelas cintilações de inúmeras galáxias, houve um planeta em que animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o instante mais arrogante e mais mentiroso da história do Universo, mas foi apenas um instante. Depois de alguns suspiros da Natureza, o planeta se congelou e os tais animais inteligentes tiveram de morrer.

Nietzsche escreveu isso no fim do século 19, querendo dizer que, por trás da busca racional da verdade, está o desejo da morte. Preocupação constante com a própria morte. "Todos devem ter presente a perspectiva de morte e devem estar preparados para o momento decisivo".

Por essas razões, continuamos sem uma definição única de vida. Talvez, ela nem exista. Talvez vida seja definida apenas pelos processos que a caracterizam. Mas ainda sem definição clara, sentimos sob uma forma penosa a perda de alguém (morte) ou parte desse alguém (doença).

O homem nos últimos dois séculos vivenciou uma grande transformação, culminando em grandes descobertas científicas e invenções tecnológicas revolucionárias como a teoria quântica, a lâmpada, o automóvel, o telefone e o transistor, que proporcionaram mudanças no estilo e na qualidade de vida. Com esses progressos tecnológicos, a disponibilidade e a qualidade da medicina melhoraram de forma espantosa na metade do século 20, com a vacina, anestesia, raios X, cultura de tecidos, antibióticos e a descoberta da estrutura do DNA. Sem falar de conquistas mais recentes, incluindo, entre outras, a terapia combinada que aumentou a sobrevida dos portadores de HIV; as descobertas do genoma humano chegando à beira do leito e a tecnologia da informação próxima a médicos e pacientes.

Esse conhecimento já nos permite viver mais e melhor, possibilitando, no último meio século, aumento da expectativa de vida em quase 50% em relação à anteriormente esperada. A transformação exuberante na forma de viver intensificou as esperanças de que começassem a se tomar realidade as promessas de uma vida mais prolongada, com menos doenças. Cada descoberta apresentada permitia conhecer melhor a célula, os tecidos, os órgãos. E cada descoberta aumentava o desejo de um momento melhor.

O que o século 21 nos reserva? Vida eterna? Há previsões de uma revolução na medicina atual, tanto no diagnóstico quanto no tratamento, com descrições de novas descobertas, muitas ainda em nível laboratorial. No caso da medicina predizente já é possível, com estudo dos genes e biografia do doente, antever o estado de saúde e prever doenças de origem orgânica ou psicossomática. Em relação à medicina preventiva, em curso, podem-se deter enfermidades e disfunções. A medicina recuperativa permite a recuperação da funcionalidade de ôrgãos, e a regenerativa possibilita regeneração ou substituição de células, tecidos, órgãos por um conjunto de procedimentos.

A medicina da performance e da longevidade assegura aumento do potencial físico, mental e da esperança de vida, como a medicina do rejuvenescimento (do corpo e da mente, aumento da inteligência e desempenho acadêmico e profissional).

A tecnologia, nos últimos anos, manteve seu desenvolvimento em velocidade inimaginável, culminando com uma geração atual de adolescentes vivendo a aurora da informática, com nova linguagem e contacto entre as pessoas muito rapidamente. Já não se fala mais em bit ou bytes, mas em terabyte, pentabyte, exabyte e Ebytes.

Com a crescente velocidade na troca de informações houve diminuição proporcional dos componentes e dos elementos presentes nos equipamentos desenvolvidos. Iniciou-se a era da nanotecnologia e da nanorrobotização que poderá permitir a concretização do maior sonho humano.

Relaciona-se ao menor robô, do tamanho de uma molécula, o futuro da medicina moderna. O DNA walker (pedestre de DNA) poderá ser programado para andar livremente pelo organismo como se usasse um GPS. Ele aprendeu “apenas” a andar, parar, voltar e transportar átomos de ouro. Mas os cientistas acreditam que, num futuro próximo, estruturas como essas poderão ser utilizadas na medicina. As moléculas de DNA poderiam, por exemplo, procurar células doentes e tentar curá-las. Seriam úteis para exterminá-las antes que criassem um tumor. Acredita-se que esses robôs possam carregar fatores tróficos, antibióticos e quimioterápicos para locais específicos do corpo humano.

A medicina do futuro, assim como ocorreu com a medicina do passado e com a atual, terá um grande impacto para que as pessoas atinjam a longevidade com melhor controle das doenças, mesmo aquelas consideradas progressivas, irreversíveis e incuráveis.

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